É a vez delas: as atletas paralímpicas

Fortes e destemidas, elas não querem apenas serem vistas como inspiração por suas características físicas, e sim por serem mulheres que estão correndo atrás de suas metas.


A participação, desde cedo, em atividades esportivas regulares tem benefícios de longo prazo para as mulheres. Estudos mostram melhora na autoestima, integração e função social, além de maior satisfação e sentimento de orgulho e criatividade, contribuindo também para a saúde física e mental. O problema é que atletas do sexo feminino experienciam durante a vida uma combinação única de questões culturais e psicossociais que os atletas do sexo masculino não precisam vivenciar. Por isso, vemos mais homens do que mulheres na maioria dos esportes. E se para as mulheres atletas, de forma geral, essas características já são grandes obstáculos na carreira, para as atletas paralímpicas o cenário é ainda mais complexo.


Mas mesmo sem receberem tanto financiamento quanto atletas que não são paralímpicos, ganharem menos em prêmios financeiros e terem menos exposição na mídia e reconhecimento nacional, elas estão prontas para demonstrar sua determinação e coragem. A Vision Business conversou com atletas paralímpicas que querem superar todos os obstáculos para deixar de ter suas histórias descritas como inspiracionais apenas por suas características físicas. Elas querem ser vistas como mulheres que podem – e conseguem – atingir seus objetivos.


Foto: Comitê Paralímpico Brasileiro

“Existe, sim, muito preconceito contra a mulher no esporte de forma geral, mas principalmente no paralímpico. Eu acho que ainda permanece essa desigualdade de reconhecimento, de que a minha medalha paralímpica não teria o mesmo peso de uma medalha olímpica tradicional. Eu sinto bastante essa diferença ainda, infelizmente. Hoje, a mulher paratleta, cada vez mais, mostra a sua força, sua capacidade de alcançar seus sonhos, objetivos e resultados expressivos. Algumas chegam a conquistar títulos inéditos, como eu, que sou campeã mundial no judô paralímpico. Cada vez mais a gente vem brigando por esse espaço e reconhecimento e temos conseguido”, conta Alana Maldonado.



A judoca foi diagnosticada aos 14 anos com a doença de Stargardt, que provoca perda de visão progressiva. Hoje, Alana tem cerca de 10% da visão em ambos os olhos. Atualmente, a judoca treina para conquistar o ouro na Paralimpíada de Tóquio e ser a primeira mulher a conseguir a medalha em jogos paralímpicos na modalidade do judô. Mas esta, se conseguir, vai ser só mais uma das dezenas de conquistas que Alana reúne no currículo. Entre elas está a medalha de prata nos Jogos Paralímpicos do Rio, em 2016; e o ouro, inédito, no Mundial de Lisboa, em 2018.


“Estamos aqui para mostrar a força da mulher. Um fato muito legal foi o número de atletas mulheres participando da edição dos Jogos Parapan-Americanos de Lima. Foi a edição que bateu recorde de participação de atletas femininas. Estamos em uma crescente muito importante, sempre em busca do nosso espaço”, ressalta a judoca.


RECONHECIMENTO

As atletas concordam: os Jogos Paralímpicos não recebem o reconhecimento ou valor que merecem. Na época das Olimpíadas no Rio, por exemplo, a cerimônia de abertura atraiu mais de 30 milhões de telespectadores, enquanto as Paraolimpíadas chegaram a apenas pouco mais de dois milhões de telespectadores.


Foto: Ale Cabral

“Tem gente que acha que o esporte paralímpico é terapia, reabilitação, e que não é um esporte de alto rendimento. Essas pessoas estão extremamente equivocadas, porque o trabalho que nós fazemos é muito sério. Então, ainda existem muitas barreiras, e precisamos nos provar todos os dias. Principalmente no caso das mulheres, já que ainda existe esse tabu de que o esporte seria ideal só para o homem, devido a questões impostas socialmente”, diz Edênia Garcia, nadadora paralímpica.


Edênia, que hoje também se prepara para os Jogos de Tóquio, nasceu com Charcot-Marie-Tooth, uma doença nervosa degenerativa que causa a perda de movimentos. A nadadora foi campeã mundial pela primeira vez aos 15 anos. Aos 17, participou dos Jogos Paralímpicos em Atenas, em 2004. Na ocasião, era a atleta mais nova da delegação brasileira. Depois, participou de vários campeonatos, além dos Jogos de Pequim, em 2008, Londres, em 2012, e no Rio, em 2016.


“A pessoa com deficiência não gosta muito de ser chamada de exemplo de inspiração, porque muitos enxergam apenas as características físicas. Entendo que outras pessoas nos veem como modelos, mas eu sou muito mais do que um exemplo de superação por ter uma deficiência. Quero muito que vejam uma mulher que está correndo atrás de seus objetivos, metas e sonhos, e que a deficiência é uma característica que eu tenho, não que me define por completo”, esclarece Edênia.


Foto: Daniel Zappe

A também nadadora paralímpica Susana Schnardorf concorda: “As pessoas ainda olham para o deficiente com pena e dó. Não conseguem apreciar como esporte em si, de alto rendimento. Veem a nossa deficiência como um obstáculo a ser superado todos os dias, e eu não encaro desta forma. Indico para todos a prática esportiva, seja uma pessoa com ou sem deficiência, pois o benefício que ela traz não limita a esse detalhe de condição física ou gênero. O esporte é muito inclusivo e transforma vidas”, defende.


Susana, que sempre foi uma pessoa muito ativa, já tinha vencido seis das 13 edições em que participou do Ironman (o maior circuito de triathlon do mundo) e cinco vezes o Brasileiro de Triatlo quando, aos 37 anos, foi diagnosticada com a síndrome de Shy-Drager, também conhecida como Atrofia de Múltiplos Sistemas. Entre as várias conquistas como paratleta, tornou-se campeã mundial em 2013 e foi medalhista na Paralimpíada do Rio, em 2016.


“Me orgulho muito e sempre me emociono ao lembrar minhas conquistas. Elas mostram a minha força e vontade de vencer esta doença que, como é degenerativa, quer me parar e vai exigindo cada vez mais de mim para performar. Também me sinto muito orgulhosa, porque acredito que as mulheres ainda precisam provar para a sociedade a sua força, porque o mundo ainda é muito machista”, analisa Susana.


Maria Carolina Santiago, outro fenômeno da natação paralímpica do Brasil, acredita que as mulheres estão ganhando cada vez mais destaque, principalmente pelo investimento nas seleções de base.


“A seleção de base está contando com muito investimento, então, desta forma, é possível dar oportunidade igual tanto para meninos quanto para meninas. Além disso, acredito que não só eu, mas todas as mulheres que conquistaram vaga na seleção brasileira, participaram de competições importantes internacionais e tiveram resultados expressivos são motivo de incentivo para que as meninas que estão começando agora possam olhar e dizer: ‘Eu também posso se me dedicar’. Então, acredito que sim, que nós somos exemplos”, enfatiza.


Foto: Comitê Paralímpico Brasileiro

Nascida com a síndrome de Morning Glory, uma alteração congênita na retina que reduz o campo de visão, Maria Carolina começou a nadar muito cedo, já que, como era um esporte sem impacto, ela podia realizá-lo sem o risco de perder ainda mais a visão. Ao longo da carreira, a nadadora conquistou dezenas de medalhas. Entre elas, o ouro em quatro provas individuais nos Jogos Parapan-Americanos de Lima, em 2019, além de dois ouros e duas pratas no Mundial em Londres.


“Minha performance em Londres acabou me garantindo uma vaga para os Jogos de Tóquio. Foi uma sensação que eu jamais tinha vivido, ter o hino nacional sendo tocado por causa da performance que nós tínhamos realizado nas provas. Foram momentos que vou levar para a vida toda”, lembra a nadadora.


QUAL O IMPACTO DA PANDEMIA DE COVID-19 NOS TREINAMENTOS?

ALANA MALDONADO - Judoca paralímpica:

“Na reta final de preparação para os jogos de 2020, fomos surpreendidos com esta questão da Covid-19. Depois, ainda tivemos que sofrer com o adiamento dos jogos e a possibilidade de cancelamento. Também foi um momento complicado, porque precisamos nos isolar, inicialmente sem treinos e, depois, tendo que adaptar os treinos para fazer em casa. Eu fiquei alguns meses fazendo apenas exercício físico. Só depois acabei transformando a sala da minha casa, em São Paulo, em um tatame para treinar judô. Tudo para tentar manter a preparação para os jogos”.


EDÊNIA GARCIA - Nadadora paralímpica:

“Eu fiquei quase seis meses fora das piscinas. Fiz algumas coisas em casa, como treinos físicos e fortalecimento, mas isso não chega nem próximo do que eu estava fazendo na piscina. Devido a todo esse tempo que eu fiquei parada, engordei oito quilos. Hoje, estou em uma dieta muito restrita, trabalhando com terapia, psicologia do esporte e psiquiatra para poder ficar com a saúde física e mental em dia. Como tenho problemas com crises de ansiedade, a pandemia também acabou acentuando esta minha característica”.


MARIA CAROLINA SANTIAGO - Nadadora paralímpica:

“No início da pandemia, antes mesmo de a quarentena ser decretada, o Comitê Paralímpico mandou todos os atletas que treinavam no CT para suas casas. Foi muito difícil, porque os Jogos de Tóquio ainda estavam mantidos, e também porque muitos não iam ter condições de fazer sequer manutenção de treinamentos em casa. Alguns atletas demoraram vários meses para voltar a treinar. No meu caso, eu fiz diferente. Passei só dois meses em casa e depois fui para o interior do país treinar. Não era uma piscina ideal, mas pelo menos eu tinha espaço para fazer a manutenção da preparação física”


SUSANA SCHNARDORF - Nadadora paralímpica:

“Foi um período difícil. Viajei por todo canto em busca de uma piscina aberta, mas tive que me adaptar e treinar dentro de casa, mas só a parte física. Comprei uma bicicleta ergométrica e pedalava duas horas de manhã e duas à tarde. Ficar sem contato com a água foi doloroso, mexeu com o psicológico. Eu diria que lidar com a ansiedade e a incerteza das coisas foi bem complicado. Tinha que me esforçar para manter o condicionamento físico e não ficar parada, mas também cuidar da mente. A gente procura apoio nos amigos e na família, mesmo que tudo a distância”

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