A saúde dos olhos durante a pandemia de Covid-19

Com os olhos ainda mais em evidência, é preciso cuidar da visão, que é um dos sentidos mais importantes para o funcionamento do corpo.


Foto: Adobe Stock

Antes da pandemia, era comum, pelo menos para as pessoas mais simpáticas, sorrir aleatoriamente para as outras ao se cruzarem na rua. Conexão momentânea, na maioria das vezes criada com um estranho, apenas pela troca de sorrisos e um breve olhar. Agora, com o uso das máscaras, os sorrisos ficaram invisíveis e sobraram os olhos para realizar a conexão. Mas pelo menos para uma coisa esses meses frenéticos de enfrentamento ao novo coronavírus serviram: muita gente passou a prestar atenção nos cuidados com a visão, que é um dos sentidos mais importantes para o funcionamento do corpo.


A microempreendedora Marli de Fátima Ricardo Urio, de 57 anos, não deixou a saúde dos olhos de lado durante o período. Ela, que teve um descolamento de retina, precisou realizar uma cirurgia ainda antes da primeira fase de lockdown no Brasil, mas continuou fazendo acompanhamento a cada três meses, já durante a pandemia, para monitorar o problema de saúde. “Continuei me cuidando, mas com algumas restrições. Como meu médico fica a 300km da minha cidade, nós sempre acabávamos saindo cedo e parávamos para fazer refeições e passear um pouco, por exemplo. Hoje, não mais. Preferimos parar o menos possível e sempre com o uso de álcool em gel e máscara”, revela.


Mesmo tomando todos os cuidados, Marli ainda se sente insegura, mas prefere passar por isso a arriscar a saúde dos olhos. “Procurar o médico como forma de prevenção é sempre muito importante. E no hospital onde eu faço meu tratamento, o atendimento e a higienização são de muita qualidade, o que nos tranquiliza”, conta.


Todo o tratamento de Marli está sendo feito no Hospital de Olhos Sadalla Amin Ghanem, situado em Joinville, Santa Catarina, considerado referência internacional. De acordo com a dra. Patrícia de Paula Yoneda, oftalmologista e especialista em cirurgia de catarata e lentes de contato, o hospital segue normas rígidas relacionadas à Covid-19. “As instituições, assim como a nossa, estão cumprindo muitos protocolos. Por isso, a orientação é procurar, sim, um médico, caso tenha algum sintoma. Além disso, é preciso ter consciência de que não dá para adiar os exames de rotina só porque estamos em uma pandemia. A demora pode acabar agravando alguns problemas de saúde”, alerta.


Entre março e novembro de 2020, de acordo com a especialista, houve queda no número de consultas de rotina. No entanto, a partir de dezembro as pessoas passaram a ter menos medo do consultório e voltaram para os atendimentos. “O problema é que algumas dessas pessoas vieram com problemas já bem graves, por terem esperado para vir ao médico. Nós atendemos, por exemplo, muitos pacientes diabéticos que não fizeram o exame de fundo de olho no ano passado, por causa da pandemia. E agora percebemos piora neste período. É preciso tomar muito cuidado, principalmente nos casos de diabetes, porque ela é uma doença crônica e silenciosa”, lembra a médica.

Foto: Divulgação Hospital de Olhos Sadalla Amin Ghanem

Redução nos casos de conjuntivite

A conjuntivite é um processo inflamatório da conjuntiva, membrana transparente que reveste, principalmente, a área branca dos olhos. Ela acontece quando um agente, infeccioso ou não, entra em contato com a superfície ocular e provoca uma inflamação. Especialistas apontam que cerca de 90% dos casos de conjuntivite aguda são causados por vírus, ou seja, tem um elevado potencial de contágio. O curioso é que, durante a pandemia de Covid-19, os médicos notaram uma redução no número de casos da doença.


“Como o contágio pelo novo coronavírus também pode acontecer por meio dos olhos, as pessoas passaram a levar menos as mãos até esta área do rosto. Então, com certeza essa diminuição no número de casos de conjuntivite também está relacionada aos melhores hábitos de higiene da população, incluindo o uso de álcool em gel. Mas também tem outro motivo: as crianças pequenas, que são as grandes transmissoras de vários vírus, não estão indo para a creche/escola. Neste caso, esses vírus não estão mais passeando para lá e para cá”, afirma a oftalmologista.


É preciso lembrar ainda que a conjuntivite pode ser um dos sintomas de infecção do novo coronavírus, mas estudos recentes relatam que o acometimento ocular na Covid-19 acontece, prioritariamente, nos casos mais graves da doença.


Foto: Unsplash

O reflexo do uso de eletrônicos

Durante a quarentena, tivemos que adotar novos hábitos, como ficar mais tempo em casa e evitar o contato físico com outras pessoas. A alteração acabou causando muitas mudanças de rotina e comportamento, com muita gente passando a trabalhar de casa, por exemplo. Os olhos acabaram, mais do que nunca, ficando grudados em telefones, TVs e computadores. Essa fixação, para muitos, também acabou influenciando negativamente na saúde dos olhos.


Diagnosticado com astigmatismo e usando óculos há sete anos, o analista de suporte Eduardo Vinícius Marchetti precisou buscar um especialista durante a pandemia. Com o tempo, passou a perceber que estava desenvolvendo uma sensibilidade nos olhos e que eles ficavam irritados com muita facilidade. “Eu estava sentindo muita dor de cabeça e cansaço na visão. Parecia que só os óculos já não ajudavam mais. Demorei para procurar ajuda, mas é porque ainda não me sinto 100% confortável para sair de casa, principalmente porque sei que outras pessoas talvez não tomem os mesmos cuidados que eu tomo para não me contaminar com a Covid-19. Mas tenho consciência de que fiz errado em esperar”, admite.

O ideal, para quem precisa utilizar muito os eletrônicos, é acompanhar o tempo de tela on-line para que possa manter o controle, além de agendar intervalos regulares para descansar os olhos. De tempos em tempos, o recomendado é afastar-se da tela, sair, fazer alguma outra coisa, e depois voltar. Para quem não puder fazer isso, a indicação é, pelo menos, desviar o olhar da tela por alguns segundos, várias vezes durante o dia. “Também é importante lembrar de piscar. Quando estamos usando esses eletrônicos, ficamos mais fissurados e acabamos piscando menos ao fazer atividades na tela. Algumas pessoas acabam ficando até com o olho bem seco, então acabamos prescrevendo colírios específicos para ajudar neste sentido. Mas cada caso é um caso e precisa de uma avaliação médica”, analisa a dra. Patrícia.


Exames de rotina

Os exames oftalmológicos de rotina são essenciais para evitar o desenvolvimento de doenças mais complexas, como olho seco crônico, glaucoma e catarata. Os médicos recomendam realizá-los para garantir que sua prescrição de óculos está atualizada (ou para determinar se você precisa de uma) e para ter certeza de que seus olhos estão saudáveis. Mas, afinal, de quanto em quanto tempo precisamos realizar esses exames de rotina?


Segundo a dra. Patrícia, depende da faixa etária em que a pessoa está e se ela tem alguma doença que possa agravar a condição dos olhos. “No caso de adultos, depende muito. Há pacientes que a gente vê que o olho é perfeito, não têm sinal de nenhuma doença, não têm nenhum grau ou histórico na família. Nesses casos, é possível fazer um acompanhamento a cada dois anos, por exemplo”.


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“Mas também existem os adultos que precisam ir todo ano, por terem um grau mais alto, suspeita de um problema específico ou histórico familiar muito forte de determinada patologia”, alerta.


Já para pessoas acima de 60 anos de idade, o ideal é realizar o acompanhamento, no mínimo, anualmente. “Isso por conta das chances de desenvolvimento de doenças relacionadas ao envelhecimento. Então, nesses casos, precisamos ficar muito atentos”, ressalta a oftalmologista.


Em relação às crianças, elas precisam fazer o primeiro exame oftalmológico por volta dos seis meses de idade. Depois, o ideal é fazer exames de rotina a cada ano. “Muita gente acha que só porque a criança enxerga a televisão e faz as atividades dela, está ótima dos olhos, mas não é bem assim. Dos zero aos oito anos, a criança está em um período de desenvolvimento visual, o cérebro dela está formando as conexões para o olho. Então, se você tem uma criança pequena que não foi ao oftalmologista ainda, leve, para ter certeza de que está tudo bem”, avalia a especialista.


Aumento nos casos de miopia entre crianças

Um estudo realizado na China mostrou que os casos de miopia entre crianças de seis anos aumentaram 400% nos cinco primeiros meses de 2020, por causa da pandemia. Segundo esse mesmo estudo, que analisou mais de 120 mil crianças e foi publicado na JAMA Ophthalmology, revista científica com maior força dentro do campo da oftalmologia, o impacto da pandemia também afetou outras idades. Entre os participantes com sete anos, o aumento foi de 200% nos casos de miopia, e aos oito anos, a alta foi de 40%.


De acordo com os especialistas, os principais vilões também são os eletrônicos. “Já temos conclusões de várias dessas pesquisas que dizem que o esforço exagerado da visão para perto, ou seja, crianças que ficam olhando para perto por muitas horas, acaba tendo um estímulo para o olho crescer, por isso elas se tornam mais míopes. Nos últimos meses, com a pandemia, como as crianças estão fazendo as aulas on-line, elas não têm feito mais atividades ao ar livre. Há uma preocupação mundial que o aumento desses casos aconteça ainda mais agora. A orientação para os pais é controlar o número de horas que essa criança passa na frente do celular ou computador”, diz a médica.


Máscara versus Óculos

Com o uso das máscaras, quem possui algum problema de visão já identificado precisou enfrentar um outro incômodo: os óculos embaçados. Isso ocorre porque o hálito, que é quente, escapa da parte superior da máscara e acaba indo parar na superfície fria das lentes, causando o embaçamento.


“Os adultos que estão trabalhando e precisam usar a máscara junto com os óculos nos procuram muito para fazerem uma cirurgia corretiva a laser ou iniciarem adaptação para usar lentes de contato. Afinal, essa equação de óculos e máscara realmente é bem complicada para algumas pessoas”, revela a oftalmologista.


Por outro lado, os jovens estão usando menos lentes de contato e mais óculos. “A maioria diz que está ficando só em casa, e como não precisa usar a máscara no ambiente familiar, acaba deixando as lentes de contato de lado e ficando só de óculos mesmo”, finaliza dra. Patrícia de Paula Yoneda.

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