Acredita, colega!


Fotos: Davi Nascimento

Carlinhos Maia, 29, sempre teve sede de sucesso. Os vídeos do dia a dia na periferia de Alagoas, estrelados pelos pais, amigos e vizinhos, nas redes sociais, foram aos poucos se tornando fonte de renda. Hoje, são sensação na Internet. Carlinhos é considerado o ‘Rei do Instagram’ e, segundo ele, os números expressivos que conquistou não têm nada a ver com sorte. Maia trabalha como influenciador digital, comunicador bem-humorado, ator e empresário. Em 2019, criou uma empresa de agenciamento artístico e, neste ano, lançou um projeto voltado ao público infantil: o app Cirquinho. A Vision Business conversou com Carlinhos Maia, em sua casa, em Alagoas, durante um ensaio de fotos com Davi Nascimento e num bate-papo descontraído e muito sincero, pudemos acompanhar de perto um pouco da rotina dele, que está longe de ter medo de arriscar. Autêntico, de riso fácil, com um coração gigante e protetor de todos que o cercam. Não é à toa que sua casa é sempre bem frequentada. Carlinhos é luz, inspiração e generosidade. Seguido por mais de 18 milhões de pessoas e com quem estabelece uma conexão de cumplicidade, a comunidade de Maia está só começando. Da Vila de Penedo para o mundo. Quando se entrega é para valer. Para ele, quem não nasce para servir, não serve para viver.


Quando começou a fazer os vídeos do seu dia a dia e da Vila em Alagoas, em algum momento pensou que isso poderia se tornar a sua profissão?

Sim. Desde o começo. Na verdade sempre foi meu sonho desde que eu era criança. Minha filosofia de vida é “Acredita, colega!”. O “colega” é para o outro, sempre, mas o “acredita” é para mim. E eu sempre acreditei, desde pequenininho. A gente tá aqui por um propósito, um motivo. Não deve ser impossível atingir aquilo que você sonha em fazer. Então eu sempre fui muito focado. Nunca tive dúvidas. Pelo contrário: sempre tive certezas. Quem tem medo de arriscar sempre vai achar que é arrogância, mas não é. Eu sabia que não era fácil. As coisas têm um tempo, um prazo, tem que vir de dentro. Mas eu nunca tive dúvida de que não aconteceria.

Apesar de ser conhecido pelo tom cômico, você não se considera humorista. Por quê?

Porque eu acho que o humorista tem a obrigação de fazer piada de tudo e eu não sou assim. Eu mostro a minha vida real. Eu quis mostrar essa rotina, as diversificações do humor. Então eu não faço as coisas sozinho, eu filmo muita gente diferente. Eu não queria ter essa obrigação de “ah, faz aí uma piada de sogra”. Para mim, não faz sentido. Prefiro ser um comunicador bem-humorado (risos).

Eu substituo “sorte” por “fé”

De onde saiu o título “Rei do Instagram”?

Eu não uso, não falo esse título. Ele saiu das pessoas. E eu agradeço demais, humildemente, a cada uma delas. Porque quando alguém me dá um título como esse, vindo do povo mesmo, significa que você está no caminho certo, que você está sendo amado. E isso é impagável.

Muita gente acredita que fazer sucesso na internet depende de sorte e obra do acaso. O que pensa sobre isso?

Nada depende de sorte. Esse negócio de sorte deveria ser tirado do dialeto das pessoas. Sorte? Sorte, para mim, é um artifício que o fracassado usa para desmerecer o sucesso e a caminhada do outro. Acho que não existe isso. Existe vontade, querer, fé… Eu substituo “sorte” por “fé”.

Quem te inspira?

Deus e Jesus Cristo (demais). Com toda a força. Jesus Cristo é o maior influenciador de todos os tempos. Então, por mais que a gente tenha tantos preconceitos, Ele me inspirou a olhar o outro como seu semelhante. E, ao fazer isso, vamos desconstruindo essa barreira dia após dia. O que ele fez foi tão grande pela humanidade… Ele é o salvador da nossa carne, da nossa alma. Minha maior referência é Jesus Cristo.


No ano passado você criou a empresa de agenciamento artístico Maia Produções. De onde veio essa vontade de lançar outros artistas e influenciadores? Por quê?

Essa empresa foi criada para que os meus personagens e as pessoas que estavam mais próximas de mim pudessem ter um direcionamento, mas ainda não é nosso foco principal. Por enquanto, a gente ainda está indo devagar nisso. Porque nossas carreiras, minha e do meu marido Lucas, acabaram ficando grandes demais e a gente ainda está tentando entender o cenário todo. Nesse momento, não tem como a gente cuidar da carreira de outras pessoas, se nossa vida está um turbilhão. Então, estamos indo com calma.



Neste ano, você lançou o app ‘Cirquinho’, que em pouco tempo se tornou o mais baixado da App Store. Até a Vila original foi transformada em desenho animado. Como é produzir conteúdo também para as crianças?

É muito surreal, porque eu sempre digo: sou um adulto produzindo conteúdo pra adulto. E muitas pessoas me diziam: ‘Ah, meu filho tá te assistindo’. E eu falava ‘Quem tem que educar seu filho é você. Instagram não é local pra criança’. Eu nunca fingi ser um adolescente de 16 anos, com chapeuzinho. Sou um homem de 29 anos fazendo conteúdo com um monte de adultos. Se um adulto quiser deixar um menor assistir, a liberdade é dele. Eu coloco aviso nos meus conteúdos com sinalização para maiores de 18 anos. Inclusive falo “tirem as crianças da sala”. Mas, foi justamente vendo essa necessidade de tantas crianças interagindo comigo no Instagram, que eu quis fazer a vilinha em desenho animado. E é muito louco, porque lá no aplicativo tem tantos desenhos bíblicos quanto minha história com o Lucas, por exemplo. E os pais, muitos deles héteros, sentem-se à vontade para baixar isso para as crianças assistirem. Acho que é sucesso, graças a Deus.

Você já participou de projetos que não foram para frente? Como é lidar com a frustração nesses casos?

Várias vezes. Até chegar em algo que dá certo, é preciso passar por várias coisas que dão errado. Mas faz parte da construção e a gente tem que tirar o melhor disso. E eu sou aberto para, quando alguma coisa dá errado, pensar que é normal. Não pode se desestimular com uma pancada que leva, porque a vida é isto: uma eterna guerra. A gente tem que lutar todos os dias.

No começo do ano, você declarou que tinha muitos projetos para lançar em 2020. Lembro da afirmação “Meu lado empresário vai aflorar ainda mais para as pessoas”. Precisou alterar os planos por conta da pandemia? Qual impacto financeiro que isso causou nos seus negócios?

Eu me reconstruí muito na pandemia. Meu lado empresarial cresceu muito, principalmente no mercado digital. Eu já estava neste mercado, mas agora ensinei outras pessoas, de fato, como ganhar dinheiro na internet. Entretanto, sem a demagogia barata de ensinar aquilo que não se sabe. Eu ensino o que eu sei e o que funcionou pra mim, a minha fórmula. Entrei com os dois pés no mercado digital e isso tem me trazido um resultado absurdo.

O tribunal da internet é implacável. Você já se declarou contra a cultura do “cancelamento” nas redes sociais. Ter sido vítima de tantos ataques, nas redes, o fez adotar esse lado?

Sim, também. Eu acho ridículas e desnecessárias as pessoas que julgam outras pessoas. Às vezes, querem definir você por um erro, mas não é assim. Nós somos um todo. Sou uma pessoa de 29 anos. Um erro não me define. Dois erros não me definem. Cinco, dez erros não me definem. Óbvio que depende se o erro é realmente hediondo, se a vida de outra pessoa depende disso. Mas, às vezes, você discorda da cor da roupa da pessoa e ela já quer te cancelar. Tem tanta coisa mais importante por aí pra gente cancelar. Sem falar que o cancelamento acontece na internet, mas quando eu chego na rua, tá normal. Você não cancela aquilo que você não consome. Então, se quem está me cancelando, conhece a minha história, isso não me atinge.

Hoje em dia, você é mais estratégico ao postar nas redes sociais?

Quem assiste aos meus stories, sabe que tem um pouco de estratégia como tem que ter, mas na maioria do tempo é espontaneidade pura. Às vezes é até normal que eu esqueça que estou falando para milhões de pessoas.

Vale dizer “não” para propostas publicitárias, em nome da credibilidade com o público?

Vale. Eu já disse “não” várias vezes.

Aliás, para você, dizer “não” é fácil?

Para mim, é muito fácil, porque eu recebi muitos “nãos” também. E, então, comecei a entender que ele faz parte mesmo. O “não”, às vezes, não é uma rejeição, você só está tão focado em outra coisa que aquilo não faz parte.

Tem algum hobby que ninguém imagina?

Tudo, para mim, é tão público, que acho que não.

O seu trabalho acabou aproximando-o de muitos famosos. Dá para ter amizades sinceras nesse meio?

Eu acho que 50%. Eu não largo a mão de uma pessoa quando ela comete um erro, por exemplo. Então isso, para mim, foi um choque no meio artístico. A maioria das pessoas, se a sua imagem tá arranhada, não chegam perto de você. Eu não sei trabalhar dessa forma. Sem querer generalizar, mas é muito mais difícil fazer amizades sinceras no meio artístico do que fora dele.

Pessoas próximas de você também acabam tendo muitos seguidores. Seu marido tem mais de 5 milhões. Seus pais têm, juntos, 3 milhões de seguidores. Até seus pets, Valentine e Kleber, têm quase 500 mil. As pessoas gostam de acompanhar a rotina da família toda?

É como se fosse uma série real. Minha mãe é uma mãezona para o Brasil inteiro. Até os cachorros são públicos. As pessoas cobram muito nossa exposição e eu fico feliz de não trilhar esse caminho sozinho. Tem que ser todo mundo, a família toda.

O que você não suporta e que o tira do sério?

A injustiça. Ela desgasta a gente.

O que mais o deixa entusiasmado?

Ver o outro crescer.

Você já fez videoclipes, séries e até espetáculos como o “Mas, Carlos” e o “Acredita, Colega”. O que mais falta fazer?

Tem o nosso filme. Em breve, a gente vai poder falar sobre isso.

De Oswaldo Montenegro: “onde você ainda se reconhece? Na foto passada ou no espelho de agora?”

Eu olho muitas fotos do passado, o tempo todo, para não esquecer de onde eu vim. Mas eu me reconheço hoje, porque foram muitas vivências, muitas guerras, literalmente. Eu precisei que o menino Carlinhos tivesse presente em muitas delas, mas que o homem Carlinhos também tivesse. Eu vivo nessa fusão. Lembra do Goku do Dragon Ball Z, que se transformava em Super Sayajin? Eu busco meu Goku lá atrás e fundo com o Carlinhos de agora.

Mas afinal, quem é o Carlinhos Maia?

É um cara que gosta das coisas, mas que é alucinado pelas pessoas. Minha maior ostentação são as pessoas. Esse leque de pessoas que estão ao meu redor. Eu gosto de sentir o amor, a proteção, o carinho delas.

Um sonho de criança? Já realizou?

Sim. Ter uma Ferrari

Um sonho atual, que possa compartilhar?

Sempre assisti a desfiles de escolas de samba e sei que vou fazer parte de um enredo de uma escola de samba grande. Não posso falar muito, mas tem coisa boa vindo por aí.