Cárcere e maternidade: a angústia de ter um filho dentro ou fora das prisões

Por Marimélia Martins

Foto: Leo Drumond

A nós, advogados criminalistas, são comuns as visitas às penitenciárias e delegacias, inclusive aos finais de semana. Recordo-me de um sábado, em específico, que me chamou a atenção.


Enquanto aguardava a liberação para ingresso no presídio, observei uma mulher, nitidamente abatida, com marcas de expressão bem definidas em seu rosto. Parei e a ouvi conversar com outra mulher que também aguardava. Ambas falavam sobre seus filhos, que lá estavam segregados, e todos os percalços pelos quais passaram após as prisões deles. Naquele momento, pensei: amor de mãe é único. Insubstituível.


Aquelas mulheres se submetiam, assim como várias outras espalhadas pelo Brasil, à revista não só dos itens alimentares que adentram o presídio, mas também à revista íntima mesmo, na qual muitas precisam se despir e fazer movimentos constrangedores para comprovar que não estão carregando algum item proibido, como drogas e aparelho celular.


Naquele momento, lembrei de uma cliente, que carinhosamente chamarei de Rita, para manter seu anonimato, embora tenha me autorizado a contar sua história.


Rita foi mais um daqueles casos que estamos acostumados a ver diariamente: mulher que entra no crime em apoio ao marido que, posteriormente, a abandona. Quando foi presa, tinha dois filhos pequenos, um menino e uma menina, salvo engano tinham 1 e 4 anos, respectivamente. As crianças ficaram sob os cuidados da avó até sua saída, após três longos anos.


Em nossas conversas no parlatório, visivelmente emocionada, a primeira pergunta que me fez foi se eu tinha notícias de seus filhos (nem sempre as avós têm recursos financeiros para visitas constantes). Tento disfarçar a voz embargada e respondo: ‘Estão bem, não se preocupe’. Só que naquela oportunidade, ela continuou: ‘Imagino que estão bem, mas a saudade aperta, doutora, sabe o que é isso?’


O clichê ‘um filme percorreu minha cabeça’ é a melhor expressão que poderia utilizar agora.

“Em frações de segundo, recordei das mulheres que ingressam grávidas no sistema ou acabam por engravidar em alguma visita íntima, saindo do presídio apenas para o parto”.

Aliás, elas já sabem que após o retorno terão a companhia de seus filhos por apenas seis meses, em respeito ao período de aleitamento. Por este curto período, acomodados em pequenos berços na cela, os bebês terão a chance de viver os preciosos primeiros meses de vida ao lado das mães, pois logo virá a separação.


Soma-se a isso o fato de estarem constantemente preocupadas com a possibilidade de seu filho estar sendo maltratado, por familiares ou estranhos, ou, pior, de que esteja trilhando o caminho do crime, repetindo os seus erros, o que aumenta ainda mais seu sentimento de culpa.


Assim que recobro a consciência, após alguns segundos da pergunta, olhei para Rita e apenas consegui dizer: ‘Eu imagino’, finalizando a conversa. Mas por dentro de mim, uma voz ecoava e me mostrava que eu posso ter noção de saudade e afastamento momentâneo, mas jamais da dor irreparável da ausência.

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