Cada dia é uma luta constante contra o espelho

Apoio e orientação são essenciais para enfrentar transtornos alimentares.

Fotos: Arquivo pessoal Lare Figueiredo

Há muita confusão sobre a gravidade dos transtornos alimentares na sociedade atual. Muitas pessoas costumam dizer, brincando, a amigos que estão abaixo do peso ou estão sempre fazendo dieta que eles devem ter anorexia ou bulimia. Mas a verdade é que esses distúrbios são muito sérios e podem ser mortais. Os transtornos alimentares têm a maior taxa de mortalidade entre as doenças mentais. Para mulheres entre 15 e 24 anos, esse índice é 12 vezes maior do que qualquer outra causa.


Desde muito nova, a jornalista e criadora de conteúdo de beleza Lare Figueiredo precisou enfrentar a si mesma em uma luta constante contra o espelho. Hoje, aos 24 anos, ela utiliza as redes sociais para tratar do assunto com seus milhares de seguidores. Para a Vision Business, Lare fala sobre como enfrentar os transtornos alimentares pode ser desafiador, perigoso, levando, muitas vezes, à recaída sem o apoio e a orientação adequados.


Eu sempre senti a pressão estética em cima de mim, dentro de casa e, principalmente, na escola. Comecei a sofrer bullying muito nova, aos oito anos. Lembro-me de os meninos começarem a zoar meu corpo, com foco no meu bumbum. Eu não era o tipo que ficava quieta não, ia para cima. Lembro-me de uma vez em que três irmãos começaram a me bater na saída da escola. Eu não consegui me defender, mas, por sorte, ou melhor, Deus, alguns meninos mais velhos estavam perto e me ajudaram. Aquilo ficou marcado na minha alma por muito tempo, não conseguia contar para ninguém, tinha muito medo e vergonha também.


Um tempo depois, eu mudei de cidade e o bullying continuou. Para uma adolescente, receber tantos apelidos era extremamente intenso. Eu sofria muito, vivia chorando pelos cantos. Sentia-me excluída do resto da turma, e em toda oportunidade de faltar aula, eu faltava. Mas o cenário mudou mesmo aos 14 anos, quando eu comecei a assistir a uma novela. Nela, uma das personagens principais tinha problemas com transtornos alimentares. Ela ficava dias sem comer e, quando comia, vomitava tudo.


Eu não sei exatamente o que passou pela minha cabeça, mas eu me lembro de achar a personagem lindíssima em todos os aspectos. Na minha imaturidade, eu pensava que deveria fazer aquilo também, para me sentir melhor e mais bonita, independentemente das consequências. Primeiro, tive comportamentos relacionados à bulimia. Eu vomitava tudo o que ingeria, às vezes, inclusive, água.


Lembro-me de que até quando não comia, em momentos de muito estresse, eu acabava vomitando para ‘aliviar’ a dor que eu estava sentindo no momento.

Aos 15 anos, comecei a desenvolver também a anorexia, parando de comer. Comecei a conhecer meninas que passavam pelo mesmo que eu, em grupos do Facebook, o que era muito perigoso. Criamos laços, fizemos amizade, havia grupo no WhatsApp para uma ajudar a outra a manter o ‘foco’, e foi aí que eu também descobri que existiam apelidos para as doenças.


Trocávamos experiências nesses grupos, compartilhávamos resultados, frustrações e muitas coisas. Entre as dicas, estava um remédio que precisava ser combinado com cafeína. Experimentei e realmente funcionou. Tomando essa mistura, eu conseguia ficar, em média, cinco dias sem comer, só tomando água ou chá, e perdia, mais ou menos, 1kg por dia. Só que o efeito colateral era curioso: parecia que em qualquer momento eu teria um ataque cardíaco. Também acabava vomitando muito, mexia muito no corpo. Assim que eu terminava de usar aquela cartela de remédio, vinha junto a compulsão alimentar, eu comia tudo que via pela frente.


Frequentemente, a ‘Ana’ e a ‘Mia’ entravam em discussão dentro do meu cérebro. Lembro-me, muitas vezes, de parar em frente à comida e ficar ‘ouvindo’ a discussão das duas: a Ana falava: ‘O vazio é bom, o vazio é forte, não come, porque, se tu comeres, tu vais estar sendo fraca, tu vais fracassar mais uma vez’; e a Mia rebatia: ‘Pode comer, não tem problema, depois tu jogas tudo fora’.

Essas doenças fazem você se sentir um lixo, mas também causam um sentimento de satisfação que poucas coisas na vida podem fazer. Eu nunca usei drogas, mas lendo relatos de pessoas que usaram, isso lembra um pouco o sentimento quando se diz respeito ao transtorno alimentar. Num dia você está no ápice do seu bem-estar, ao não estar comendo, vendo seu peso diminuir dia após dia na balança. Mas, no outro, você já está no fundo do poço, como se nada do que você fizesse fosse suficiente e precisasse de mais. A sensação era de estar envolta em uma escuridão depressiva.


Cheguei a envolver meu corpo todo em plástico filme e caminhar por quilômetros para perder medidas e peso. Lembro bem de passar meus dias na cama e não conseguir levantar para viver a vida. Tudo começou a mudar quando iniciei minha caminhada mais próxima do cristianismo. Eu me levantava, me animava e ia feliz da vida à igreja, porque eu tinha achado um motivo de verdade para viver. Passei a me preocupar com a minha saúde e a procurar ajuda para superar os transtornos alimentares. A ‘Ana’ e a ‘Mia’ não estavam mais na minha cabeça me dizendo o que fazer. Passei a ter pensamentos que aprendi a controlar.


Se você me perguntar, hoje, se eu acredito em uma cura total, eu digo que sim, porque precisamos ter esperança. Mas não conheço nenhuma pessoa próxima de verdade que não sofre com nenhum resquício do que o transtorno alimentar deixou. Comigo, eu carrego o que restou do meu transtorno, que é a compulsão, além do transtorno de ansiedade generalizado, a depressão e o pânico. Algumas conhecidas daquela época precisaram enfrentar consequências ainda piores, como a perda dos dentes e até a morte.


O que eu vejo são muitas pessoas que, assim como eu, lutam dia após dia para não recaírem. Lutam dia após dia para se olhar no espelho e se amar. E, principalmente, lutam para não se importar com o que a balança diz, se é que ela diz alguma coisa.

Hoje, após 10 anos de luta, eu sei que eu posso ser 30 quilos mais leve ou 30 quilos mais pesada, mas que preciso me amar do jeito que sou. Isso não significa que não podemos querer mudar e melhorar algo que nos incomoda, mas eu percebi que quando nos amamos, independentemente do tamanho da calça, o resto se torna bem mais leve, e o melhor de tudo: com saúde.


Eu trabalho com a internet e é bem difícil sobreviver à pressão estética que vemos por aí nas redes sociais, mas o que eu faço é seguir pessoas reais com as quais me identifico com o discurso e com o corpo, porque, na verdade, nos foi ensinado que só o magro é bonito, mas isso é uma baita mentira, viu?


Tudo pode ser bonito, desde que seja saudável.

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