Cenas de filme de terror: do 11 de setembro à explosão em Beirute

Tragédias ao redor do mundo que marcaram nossas memórias, influenciaram hábitos e instituíram novas regras em sociedade.

“Foi um dos maiores sustos da minha vida. Parecia um pesadelo. No meio da aula, uma menina entrou na sala berrando ‘Terroristas nas torres gêmeas! Avião!’. Apesar do aviso dela, continuamos na aula. Só fui entender o que estava acontecendo ao ver que muitas pessoas estavam tentando fazer ligações. Meu celular ficou sem sinal, então encontrei um telefone público e liguei para os meus pais, no Brasil. Eu os acalmei e, assim que saí do prédio da faculdade, notei que o ar estava cheio de fuligem. Quando cheguei em casa, liguei a tv e vi a imagem do primeiro avião colidindo na torre. Lembro-me de pensar: ‘Nossa! Que filme realista! Vou trocar de canal’. E eu fui trocando de canal, por uns dez minutos, até me dar conta de que aquela era a imagem do ataque terrorista que a menina estava avisando na faculdade. A imagem era tão surreal que meu cérebro não conseguia assimilar a cena com a notícia”, conta a paulista Patricia Toussie, especialista em roteiros de turismo. Patrícia visitou Nova York, pela primeira vez em 1996, quando conheceu o futuro marido. Casou-se e mudou-se definitivamente para a Big Apple em 2001, ano dos atentados.

Foto: Arquivo Pessoal Patricia Toussie

Quando uma pessoa passa por uma experiência, boa ou ruim, ela se transforma em memória. No caso dos atentados de 11 de setembro, os ataques causaram problemas de saúde coletivos como síndrome pós-traumática. Cerca de 60% dos americanos assistiram aos ataques ao vivo pela televisão e os viram em repetição por dias, semanas e anos após os ataques. Patrícia lembra que o assunto foi amplamente abordado na mídia. “Acho que quem vivenciou na pele, quem viu atrocidades, mortos, estava lá perto, nunca vai esquecer. Para mim, parece que passou. É tipo a minha sensação com o Holocausto (sou judia) – nunca vou esquecer, mas para mim que não vi, pega mais leve. Entretanto, quando tem um estrondo forte, acho que todo nova-iorquino fica mais sensível. O pavor daquele dia volta na hora, até descobrir o que foi o barulho. As pessoas automaticamente abrem os olhos e olham assustadas ao redor”, diz.

Novas medidas

As consequências dos ataques nos Estados Unidos foram muitas. Entre elas está a criação da Agência de Administração de Segurança de Transporte (TSA). As medidas de segurança em aeroportos ficaram mais rígidas para tentar evitar situações assim. As portas das cabines dos aviões passaram a proteger melhor os pilotos e o processo de triagem aumentou. A segurança também foi aumentada em empresas e escolas, com recursos como portas e janelas com travamento automático. Em contrapartida, também houve um aumento no número de casos de racismo generalizado e preconceito religioso contra os muçulmanos, além de restrições à imigração, em resposta aos ataques. Na época, Nova York sofreu com a queda no número de turistas. A especialista em roteiros de turismo conta que a situação permaneceu assim por pelo menos um ano. Depois, algumas áreas passaram, inclusive, a receber mais visitantes. “No meu trabalho às vezes me deparo com clientes que não querem visitar a área dos ataques. Quando percebo clientes que não querem ir lá, eu respeito, mas tento, também, informá-los de que a área é um exemplo de resiliência e recomeço. E que o memorial, apesar de triste, deve ser visitado, porque devemos sempre carregar na nossa memória a história e nem sempre ela será bela. O museu eu também recomendo, mas não para crianças pequenas. Eu levei os meus filhos e foi extremamente chocante para eles”, ressalta.

Novos hábitos após a tragédia da Boate Kiss

À medida em que vivemos e passamos pelas experiências da vida, evoluímos como pessoas e nossas memórias passam a influenciar a maneira como agimos nas situações. Depois da tragédia da Boate Kiss, que acabou com a vida de 242 pessoas no dia 27 de janeiro de 2013, em Santa Maria, o arquiteto gaúcho Gláucio Silva, 32, nunca mais entrou em uma festa sem prestar atenção nas saídas de emergência. “No dia que aconteceu eu estava em uma festa em Porto Alegre. Cheguei em casa super tarde e quando acordei liguei a TV e estava passando a notícia. O lugar que eu tinha ido era muito parecido, com muita gente e aglomeração. Fiquei muito apavorado e pensando que poderia ser com qualquer um. A tragédia tocou muito não só o Rio Grande do Sul, mas o Brasil inteiro. Passei a prestar muita atenção e ficar próximo das saídas de emergência. Local com muita gente? Eu já penso na rota em que eu faria até chegar a porta. Checo onde está o extintor, saída de emergência e se tem ou não sinalização”, declara.


Foto: Freepik.com

O arquiteto lembra que naquela mesma semana, todas as boates do Rio Grande do Sul e de grande parte do Brasil, começaram a receber vistorias e rever protocolos. Muitas festas ficaram fechadas por muito tempo. Além disso, começaram a controlar a quantidade de gente que entrava e saía, o que não acontecia antes. A Lei Kiss gaúcha 14.376/2013, complementou novas normas às já existentes. Um tempo depois, o Congresso se mobilizou para aprovar uma regra em nível nacional. A Lei 13.425/2017 estabelece diretrizes gerais sobre medidas de prevenção e combate a incêndios e a desastres em estabelecimentos, edificações e áreas de reunião de público. “Principalmente na arquitetura comercial, os projetos foram afetados. Passaram a valer várias normas dos corpos dos bombeiros e mudaram exigências quanto às saídas de emergências, lotações máximas, entre outros. Quando estamos criando um projeto novo, por exemplo, toda a arquitetura precisa ser feita em parceria com quem faz o plano de prevenção e proteção contra incêndios, o PPCI”, revela.

Explosão em Beirute

No último mês de agosto, questões sobre normas de segurança voltaram à tona na mídia. A enorme explosão ocorrida na capital do Líbano, Beirute, levantou questionamentos sobre o quão seguras estão pessoas que moram tão próximas a zonas portuárias, que armazenam produtos químicos e inflamáveis. Luiz Felipe Czarnobai, natural de Gravatal, interior de Santa Catarina, é diplomata e mora no Líbano há alguns anos com o marido e os três filhos. O apartamento em que moravam ficava a um quilômetro do local da explosão e foi atingido: vidros quebraram, portas caíram. O diplomata estava em casa com os três filhos e a babá. “Vi luzes vindo em nossa direção, gritei ‘corre’ e a babá, felizmente, estava ao lado do meu filho e o puxou. Ela é minha heroína. Fomos para debaixo da cama do meu quarto, que não foi atingido. Moro a aproximadamente um quilômetro do porto, no 21º andar, de onde vejo nitidamente tudo na minha frente”, descreve.


Foto: Arquivo Pessoal Luiz Felipe Czarnobai

Manifestantes realizaram protestos contra o governo após a mega explosão, que deixou dezenas de mortos e culminou na renúncia do primeiro-ministro Hassan Diab. Pelo menos 300 mil pessoas ficaram desabrigadas.

Com a tragédia, o apartamento em que Luiz morava com a família ficou inabitável. Agora, eles estão morando em um outro apartamento. Nas redes sociais ele comentou sobre os estragos. “Eu só pensava em gratidão a Deus por minha família estar bem. Temos que agradecer, todos os dias, por estarmos vivos!”, exclama.

Experiências ruins, especialmente aquelas que sobrevivemos e superamos, muitas vezes, tornam-nos melhores e mais sábios. Aprender nada mais é que uma série de erros que nos lembramos de não repetir. É o que afirma a psicóloga Marcele Bressane.

“As memórias, principalmente de grandes eventos da vida, moldam-nos.”

Funcionamos a partir da soma delas. As memórias, tanto as boas quanto as ruins, são necessárias. Mas é preciso lembrar que não podemos viver apenas delas. É preciso aprendermos com elas, mas fazer novas memórias, justamente para continuar aprendendo”, lembra.

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