CICLOTURISMO CRESCE NO BRASIL E GANHA NOVOS ADEPTOS

A sensação de liberdade e a possibilidade de manter a prática de exercícios físicos de forma segura, durante o período de pandemia, foram fatores que impulsionaram o segmento de bicicletas no último ano no Brasil. A prática do ciclismo tem ganhado, cada vez mais, adeptos que aproveitam o pedal para conhecer novos lugares e estar, ainda mais, em contato com a natureza.


Professor de Yoga e fotógrafo, Venâncio Filho começou a andar de bicicleta em dezembro de 2020. A intenção era buscar uma atividade física que o mantivesse seguro e capaz de continuar mantendo o distanciamento social. Foi então que, com uma bicicleta antiga guardada em casa, desbravou as ruas de Curitiba. “A pandemia, definitivamente, foi o fator determinante para que eu começasse a pedalar com frequência. Eu via alguns amigos postando stories no Instagram dos seus pedais, fazendo 40, 50 quilômetros, e pensava que nunca iria pedalar tanto assim, mas iniciei. Aos poucos, fui ganhando confiança para ir mais longe”, expõe. Hoje, ele percorre trajetos maiores, e recentemente completou o primeiro pedal com mais de 100 quilômetros. “Eu me lembro o quanto comemorei e fiquei feliz na primeira vez que pedalei por 10km sem parar! Pra mim, era o auge, algo que eu jamais esperaria alcançar. Recentemente, emplaquei os 100km”, relata

Trocar o carro pela bicicleta


Com o passar do tempo, a bicicleta também passou a ser utilizada como meio de transporte. “Hoje, vou ao mercado de bike quando preciso fazer compras menores, que caibam numa mochila. A economia de combustível e o entendimento de estar contribuindo para uma cidade mais humanizada despertaram essa atitude. Imediatamente, me tornei, também, um motorista melhor, mais atento, conhecendo os desafios do pedestre e do ciclista”, aponta Venâncio Filho.


Foi durante o último ano que o jornalista Marcos Francisco Madeira trocou o carro e o transporte público pela bicicleta, inclusive para trabalhar. No tempo entre a casa e o trabalho, Madeira tem um momento para conectar-se consigo mesmo. “Moro em uma cidade e trabalho em outra. Utilizo a bike como meio de transporte, contribuindo, assim, com o meio ambiente e a mobilidade urbana. E, ainda, aproveito esse tempo para praticar um exercício e manter a saúde em dia”, ressalta.


Mudanças de vida

Começar a pedalar trouxe um outro olhar para a cidade, segundo Venâncio Filho. Buscando novas rotas e lugares novos para desbravar, começou a perceber Curi[1]tiba com uma nova visão. “Trabalho 100% on-line desde março de 2020 e precisava de um escape. Hoje, passo por lugares que nunca havia dado muita atenção e percebo novas possibilidades também para meu trabalho com fotografia”, reforça.


Já para Madeira, a prática do ciclismo o fez conhecer novos lugares e desbravar locais que não teria acessado senão por meio da bicicleta. A modalidade escolhida por ele é o Mountain Bike. Esta prática faz o ciclista estar em contato maior com a natureza e o leva a conhecer trilhas, praias, montanhas. “A região Sul de Santa Catarina é privilegiada, principalmente pelos pontos do litoral. Há muita coisa bonita para conhecer. O pedal nos leva a lugares impressionantes, que podemos observar com calma”, valoriza.


Pedais longos, experiências compartilhadas

Tanto Madeira quanto Filho buscam trajetos longos para os pedais. Além da prática de um exercício, este é o momento que tiram para conectarem-se consigo mesmos. “A bicicleta é um complemento incrível aos benefícios do Yoga, que pratico e ensino. Mentalmente, é como uma meditação ativa. Isso me faz muito bem nesse momento de isolamento social, que sigo respeitando. Gosto de pedalar por lugares diferentes, e para isso eu estou indo cada vez mais longe”, ressalta o fotógrafo.


As aventuras sobre a bicicleta são compartilhadas com amigos. Madeira, por exemplo, faz parte de um grupo de ciclistas que buscam conhecer novos locais pedalando, principalmente durante os finais de semana. “Hoje, somos quatro casais. Criamos os roteiros e nos preparamos para descobrir novos lugares. Os percursos e as experiências do grupo são mostrados por meio de um perfil no Instagram, para fomentar a prática do esporte a outras pessoas”, explica.


Filho também compartilha os pedais e os percursos que realiza, sozinho ou com o grupo de amigos próximos, no próprio perfil do Instagram. “Um amigo me enviou a foto da bicicleta que acabou de comprar, inspirado nas minhas publicações! Fico muito feliz que as pessoas se motivem, não exatamente em pedalar, mas em fazer algo novo, colocando-se em movimento, de forma responsável, pois é fundamental nos mantermos saudáveis nesse momento de pandemia”, reforça.


Surgimento de rotas turísticas

Nos últimos anos, a prática do ciclismo em grupo cresceu e também fez impulsionar uma modalidade de turismo: o cicloturismo, que a cada dia vem ganhando novos adeptos, os quais buscam este tipo de atividade pra conhecer novos locais e conectar-se com a natureza e o meio ambiente de forma segura, principalmente durante o período de pandemia.

Santa Catarina é um Estado que tem se tornado referência no cicloturismo. Uma das rotas mais famosas no Brasil e muito procurada pelos ciclistas é a do Vale Europeu, na região Norte do Estado. No trajeto estipulado, os ciclistas percorrem 300Km, num itinerário de nove cidades em um período estimado de sete dias.


Todo o circuito é sinalizado com placas e setas, que guiam o ciclista pelas cidades de Timbó, Pomerode, Indaial, Ascurra, Apiúna, Rodeio, Benedito Novo, Doutor Pedrinho e Rio dos Cedros. O trajeto foi desenhado para ser realizado de bicicleta e passa por atrativos turísticos da região, como cachoeiras, estradas de terra e locais com a arquitetura colonial.

Inspirada no Circuito do Vale Europeu, no Sul do Estado, outra rota nasceu. Passando pelas cidades de Tubarão e Laguna, o Desafio Circuito Anita leva os ciclistas a conhecerem os locais onde Anita Garibaldi passou. Todo o percurso tem sido projetado há pelo menos três anos, de acordo com uma das idealizadoras, Priscilla Lourenço. “Esse projeto nasce para preservar a identidade cultural da região”, salienta.


No Sul catarinense, o Desafio Circuito Anita foi desenhado para que o ciclista possa vencê-lo em três dias. “São 132 quilômetros entre Tubarão e Laguna, mas nada impede que o atleta possa fazer em um período maior, para aproveitar ainda mais a região”, expõe

O circuito é autoguiado e, ao fazer a inscrição, o participante pode receber medalhas e certificados. “Ele consegue fazer o check-in nos locais onde estão os nossos qr-codes. Mas nada impede que ele possa fazer também de maneira gratuita, baixando os guias e mapas do nosso site”, comenta Priscilla.


Desafio de melhorar o turismo em uma região

Com o crescimento do cicloturismo, o desafio é preparar hotéis e restaurantes para receberem esse público. “Com o lançamento do Desafio Circuito Anita, já recebemos ciclistas do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo. É necessário que esses hotéis contem com bicicletários, ou até mesmo permitam que o turista leve a bicicleta para o quarto”, aponta a idealizadora.

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