“Como decíamos ayer...”


Por Mareliza Cupolilo


Há quase 500 anos essa frase foi pronunciada. De acordo com os registros históricos, teria sido dita por Frei Luís de León (1527-1591), um culto e respeitado catedrático da Universidade de Salamanca – Espanha, preso por cerca de cinco anos, após ser denunciado por traduzir livros proibidos pela inquisição da Igreja Católica.


Ao ser absolvido de tais acusações, o frei voltou imediatamente a dar aulas e, quando entrou em sala, começou a sua explanação com esta justa frase: ‘Como dizíamos ontem’.

Há quinze anos, eu chegava à Salamanca. No entanto, parece que foi ontem. ‘Oh, céus! Quem autorizou o tempo a passar tão rápido assim?’.


Nós, humanos, nascemos com esse indecoroso capricho de pensar que controlamos alguma coisa na vida... Na verdade, é de assombrosa soberba pensar que controlaríamos essa força da natureza chamada tempo.


Foto: Arquivo Pessoal Mareliza Cupolilo

Ainda ontem (ou melhor, há quinze anos), ao desembarcar em Salamanca, não existiam iPhones, tampouco poderíamos prever a revolução que seria causada por esse portátil ‘aparelhinho’ de Steve Jobs.


Eu vivenciava a minha primeira viagem intercontinental. Ia atrás de conhecimento. Seguia o incontrolável instinto de alimentar a alma com aquelas vivências que apenas havia lido nos numerosos companheiros livros. Cruzei o oceano com duas grandes malas (juntas, pesavam mais do que eu própria!) e muitas dúvidas pela frente. Mais especificamente, carregava duas certezas: a primeira, a de que eu havia sido admitida como acadêmica intercambista na Universidade de Salamanca; a segunda, de que eu buscaria a qualquer custo não decepcionar o voto de confiança dos meus pais.

Foto: Grupo GPHE

Após 24 horas de viagem, aportei no terminal rodoviário de Salamanca sem a menor ideia de onde me hospedaria a partir de então. Deparei-me com um pequeno hotel, próximo à rodoviária, e, reunindo todas as forças, reboquei as minhas malas para aquele lugar. Depois de dormir doze horas seguidas, me dei conta da premência de encontrar um lugar para ficar pelos próximos meses. Busquei os anúncios espalhados pelos orelhões da cidade (esses telefones ainda existem?), pois neles eram anunciadas as opções.


Felizmente, a sorte esteve ao meu lado e, rapidamente, encontrei o apartamento certo para alugar durante a longa estadia: o meu novo lar pelos próximos meses. Foi, então, que eu telefonei para meus pais, 72 horas após haver deixado o Brasil, com a intenção de avisar que tudo estava bem e que eu já tinha uma nova morada. Como era de se esperar, após três dias sem notícias da filha caçula eles estavam naturalmente ansiosos. Mas era uma ansiedade causada pela preocupação de quem deixou um filho jovem cruzar os continentes atrás de seus sonhos, num mundo pré-iPhone, numa realidade anterior ao domínio do Facebook.

Num telefone público, após a ligação ser completada, eu disse: ‘Bença, mãe!’, e pude ouvir o suspiro de alívio do outro lado da linha: ‘Filha, é você?’.


Amiúde, recordo-me desse momento. E sempre me espanto! Aconteceu ainda ontem. Há 15 anos, não existiam os smartphones, e, muito menos WhatsApp ou Waze. Nossa comunicação era por carta escrita, e-mail ou telefonema. Quando queríamos algo mais próximo, simplesmente aparecíamos na casa do outro. Nossas locomoções se davam pelo ‘Guia 4 Rodas’, mapas impressos ou por aparelhos GPS grandes e complexos. Fora isso, nos movíamos por puro instinto.


HOJE EM DIA, NENHUMA DÚVIDA FICA SEM RESPOSTA

Qualquer informação está, literalmente, na palma da nossa mão. Ou no bolso da calça. Basta acessar a rede por meio do seu celular. Sendo muito sincera, eu não nasci para contradizer a revolução tecnológica. Sou adepta dela. Reconheço a sua profunda indispensabilidade e agradeço por ter me tornado mãe após o advento de toda essa tecnologia, pois isso facilitou muito a minha vida.


"Mas preciso confessar que, às vezes, me pergunto se os meus filhos não mereciam ter experimentado a liberdade do mundo anterior, que aconteceu há tão pouco tempo".

Aprender a fazer escolhas pelo instinto (e também pela intuição) não é algo que se possa acessar tão facilmente neste mundo digitalizado e exacerbadamente virtual."

Foto: Altum Code (Unsplash)