Determinação gera resultados

Por Vanessa Mendes

Fotos: Davi Nascimento

Visionária e dedicada, a catarinense Sônia Hess tornou-se empreendedora de sucesso empoderada e atuante. Em 2013, chegou a ser reconhecida pela Forbes como a 6ª mulher mais poderosa do Brasil. Formada em administração e com vivência trabalhando na Europa, Sônia usou toda a sua determinação para transformar a camisaria Dudalina em um império. A empresa, que começou pequena em 1957, foi fundada pelos pais dela, Duda e Adelina, que tiveram ainda outros quinze filhos. Com garra e talento, hoje a Dudalina tem atuação expressiva em toda a América Latina e também em outros países mundo afora.


A marca, que antes produzia apenas peças masculinas, passou a ter o público feminino também como alvo. Entre os desafios para a mudança, a Dudalina precisou otimizar o maquinário da produção e inovar nos desenhos das peças. A inovação chamou a atenção de grandes lojas e resultou em parcerias que elevaram as vendas. A gestão de Sônia Hess frente à empresa, como presidente, foi tão impactante que quando a Dudalina se fundiu com o grupo comercial Restoque, a empresária, na época, continuou como membro do Conselho.


Na sua casa, em São Paulo, Sônia Hess recebeu nossa equipe para um ensaio de fotos com Davi Nascimento e um bate-papo revelador. Hoje, ela atua exclusivamente no terceiro setor – com o objetivo de gerar serviços de caráter público. É vice-presidente do Grupo Mulheres do Brasil, que desde 2013 estimula a participação feminina na construção de um país melhor para todos, e membro de vários Conselhos, como Instituto Ayrton Senna, Fundação Dom Cabral, Grupo Sequóia, Petz e Warburg Pincus do Brasil.


Sônia, se a criança que você foi um dia viesse te visitar, ela iria te reconhecer? Por quê?

Acho que não. Eu fui uma menina do interior de Santa Catarina, de uma cidade chamada Luiz Alvez, que não tinha nada. Não tinha nem TV, e o rádio pegava mal. Hoje, eu moro em São Paulo, já há muitos anos. Fiz uma vida fora daquele mundo. Então, acredito que eu não me reconheceria, não.


Que palavra te define?

É complicado se definir, mas acredito que eu diria que sou agregadora.


Quando a Dudalina optou por produzir também peças femininas, vocês tiveram vários desafios. De onde veio essa ideia?

Aconteceu muito parecido com o início da produção de camisas masculinas. Na época, a Dudalina surgiu de uma oportunidade dentro de uma crise. Meu pai tinha comprado um tecido errado em uma viagem que ele fez a São Paulo e, nisso, minha mãe viu uma oportunidade de começar a fabricar camisas. Nós tínhamos um excesso de tecidos, ideias novas e vontade de quebrar paradigmas, já que, até então, éramos uma empresa apenas de roupa masculina. As coisas foram acontecendo e deu tudo certo.


Vocês foram, inclusive, pioneiros ao colocar os botões duplos nas camisas femininas. Como isso aconteceu?

Eu sempre gostei de usar camisas, então a primeira ideia veio daí, da minha vontade de fazer diferente. Mas tínhamos que tomar muito cuidado para não cometer o mesmo erro que outras marcas, inclusive mundiais, cometiam. Era comum que os botões das camisas ficassem abrindo, por causa dos diferentes tipos de corpos das mulheres. Por isso, na nossa linha, colocamos botão duplo, a partir de muito estudo de design e também de funcionamento. Queríamos fazer um produto que vestisse a mulher com muito conforto e que fosse anatômico.


Aos nove anos, você já era a melhor vendedora de uma das lojas montadas pelos seus pais em Santa Catarina. Desde aquela época, você já sabia o que queria fazer profissionalmente na vida?

Eu sempre gostei muito de vender. A Luiza Helena Trajano, minha amiga e colega no Grupo Mulheres do Brasil, costuma dizer que eu sou a melhor vendedora que ela conhece, porque eu vendo qualquer coisa (risos). Mas eu não gosto só de vender, eu gosto de contar uma história sobre o que eu estou vendendo. Quantas vezes nós entramos em uma loja e só compramos pela emoção do momento? Isso acontece porque alguém lá está fazendo um bom trabalho de conquista e envolvimento.


Aos 18 anos, você viajou para a Espanha com a intenção de se aprofundar no setor de confecções. Essa experiência na Europa fez diferença na sua visão de mercado?

Fez 100% de diferença. Foi uma imersão na indústria, e eu aprendi muito sobre tecnologia de confecção. Além disso, me abriu para o futuro, porque eu voltei de lá e implantei vários sistemas que estudei.


De Sônia Hess: ‘Gestão de chão de fábrica é cuidar das pessoas’. Você deu essa declaração ao falar sobre o período em que assumiu a gestão da Dudalina, em 2003. Quais medidas você tomou na época?

Qualquer empreendedor tem que gostar de pessoas. Mas não é da boca para fora, é de verdade. Uma das várias coisas que eu fiz na época foi ir para as fábricas. Lembro que em uma delas fui ao banheiro e, quando olhei, pensei: ‘Isso não é banheiro para essas mulheres’. Então, mandamos fazer banheiros bonitos, com espelhos e decorações para todas as fábricas. Chamamos um arquiteto e remodelamos tudo. Além disso, na maioria das fábricas muita gente ia trabalhar de bicicleta. Então, em um dos natais demos uma bicicleta para cada colaborador, personalizada com o nome de cada um. Mas essa era só uma forma de retribuir o que essas pessoas nos ajudaram a construir. Na época, também fizemos vários outros projetos, inclusive relacionados à saúde, como a realização de mamografias. Eu sempre gostei de estar próxima das pessoas.


Qual sonho de criança você já realizou?

Eu sempre gostei de trabalhar. Amava que meu pai e minha mãe me admirassem por isso. Então, acredito que o meu maior sonho era ser independente, e isso eu já conquistei.


O Grupo Mulheres do Brasil, que você é vice-presidente, conta com vários projetos relacionados à participação feminina na construção de um Brasil melhor. Como é feito este trabalho?

Nós somos, hoje, 75 mil mulheres do mundo inteiro, presentes em mais de 120 cidades, sendo mais de 30 fora do Brasil. O nosso propósito é transformar o país. Lutamos por várias causas, e cada uma delas tem suas líderes. Somos um grupo 100% suprapartidário. Nosso único objetivo neste sentido político é que tenhamos mais representantes mulheres, independentemente de seus partidos. Queremos ser protagonistas da mudança. Além disso, durante a pandemia criamos o Fundo Dona de Mim, que tem como objetivo impulsionar Microempreendedoras Individuais (MEI) impactadas pela crise econômica e social provocada pela Covid-19.


Qual é o seu maior sonho, hoje?

O meu grande sonho hoje é ter o Grupo Mulheres do Brasil como grande transformador do nosso país, proporcionando acesso para mais pessoas, transformando a vida delas por meio da educação, saúde, políticas públicas, inclusão social, zero violência contra a mulher, e muito mais. O meu sonho é deixar para os meus netos um país e um mundo melhor.


O que te tira do sério?

A injustiça, a arrogância e a prepotência de governos que não olham as pessoas. Quem se candidata a qualquer cargo público não pode pensar em seu umbigo. Me tira do sério quem chega nesses cargos dizendo que vai cuidar do povo e não faz isso. No mundo todo, existem governantes que contam histórias e acabam não cuidando de seus povos.


Qual é a sua maior habilidade?

Agregar e acolher.


Você, com a experiência de vida que tem hoje, considera que ainda tem muito a aprender?

Eu não sei nada... Estou aprendendo todos os dias.


Então, você poderia dizer que hoje fez o seu melhor para aprender algo novo?

Sempre faço.


Qual é a melhor parte de ser a Sônia Hess?

Ter conquistado a minha liberdade.


No que as pessoas precisam prestar mais atenção?

No outro.


No universo dos negócios, o network é muito importante. Que dicas você dá para quem precisa fazer contatos?

Seja leve, gentil, generoso, cuidadoso e empático.


Sônia Hess em poucas palavras

Deus

O meu guia.


Família

Meu legado. Meu marido, João, que é um homem que me compreende e tem muito do meu pai, sempre me deixou voar. Além, claro, dos meus filhos e meus oito netos.


Inveja

O pior dos sentimentos.


Sucesso

Resultado de trabalho.


Qualidade

Generosidade.


Equipe

Só é possível empreender com equipe.


Dudalina

Um lindo sonho.


Um arrependimento

Não ter estudado inglês.


Um medo

Doença.