Doenças esquecidas durante a pandemia da Covid-19


Fotos: Freepik.com

A pandemia causada pelo Coronavírus é um dos assuntos mais comentados nos últimos meses. Com o crescente número de vítimas e infectados a cada dia, em todo o mundo, é comum que tenha se tornado rotineiro o medo por essa doença. Enquanto parte da sociedade não concorda com todas as regras impostas para o controle da Covid-19, outras pessoas mudaram totalmente os seus hábitos e deixaram, até mesmo, de realizar exames de rotina. O pavor de clínicas e hospitais agora é real, e com ele, um novo problema: as doenças esquecidas.


Mesmo sendo um temor compreensivo, ele também é encarado como algo perigoso. Para Victor Sorrentino, médico, professor, palestrante internacional e defensor da medicina integrativa, o descaso com as outras doenças deve ser encarado com muita tristeza. A falta de planejamento e, por consequência, a sobrecarga dos hospitais em todo o Brasil acarretaram diversos problemas para os pacientes, entre eles diagnósticos de câncer postergados e até mesmo cirurgias eletivas que precisaram ser adiadas. “Nós ‘trocamos’ muitas coisas em nome de uma só doença. Tudo isso por conta de uma condição. Até mesmo o aumento do uso de álcool e de drogas, a ansiedade e depressão, insônia, obesidade, diabetes e o descontrole de doenças cardiovasculares estão relacionadas com a pandemia”, declarou o médico.


DADOS ALARMANTES

A queda na procura por exames relacionados a outras doenças se confirma com os dados divulgados pelo Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InCor) – considerado um dos principais serviços de atendimento cardiovascular do país –, que mostra que o número de pacientes que realizaram uma angioplastia, por exemplo, caiu mais de 50% durante o mês de março, quando a pandemia ainda chegava ao Brasil.

A Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) também traz algumas pesquisas que reforçam o problema relacionado às doenças esquecidas. De acordo com a associação, houve uma queda de quase 40% nos serviços de diagnósticos e ambulatoriais, o que mostra como as pessoas seguem esperando pelo momento em que a pandemia se flexibilize para, enfim, procurar por atendimento.


O MEDO DE PEDIR AJUDA

A supervisora de vendas Edilene Goularte é um exemplo desse comportamento. Atualmente, o dia a dia da profissional se resume ao caminho entre a casa e o trabalho, e até mesmo as compras presenciais no supermercado foram suspensas. Ela conta que, por ter a possibilidade de trabalhar em home office, ainda no início da pandemia sequer saía de casa, tendo suspendido, inclusive, os exames de rotina que costumava realizar com certa periodicidade.


“No início, eu fiquei com muito medo, e ainda sigo amedrontada. Sou do grupo de risco, tenho diversos problemas respiratórios, então deixei de fazer muita coisa por medo de me contaminar e acabar contaminando toda a minha família. Deixei de fazer as minhas consultas no médico, que antes eram realizadas com maior frequência, como exame de ultrassonografia, ir ao oftalmologista, e praticamente todos os outros exames de rotina que costumava fazer”, comenta Edilene.

Segundo a diretora da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Maria Ignez Braghiroli, o comportamento do brasileiro mudou durante a pandemia, e muitas pessoas acabaram temendo procurar ajuda, mesmo que estivessem com algum problema de saúde: “Tanto no setor privado quanto no SUS, é significativa a queda na realização de exames de rastreamento de câncer. Em abril, a taxa de ausência ficou em torno de 50% no privado, e acreditamos que ainda mais alta no SUS, já que a maioria dos hospitais públicos está voltada ao atendimento dos casos de Coronavírus”.


Assim como ressaltou o médico Victor Sorrentino, Maria Ignez também acredita que o medo da Covid-19 e o adiamento dos mais diferentes exames podem acabar acarretando em diagnósticos tardios de diferentes tipos de câncer, logo impactando diretamente na qualidade e tempo ágil de tratamento. “É fundamental não desprezar sintomas que fujam da normalidade, como dores, inchaços, nódulos, manchas, perda de peso inesperada, dificuldade na cicatrização de feridas, presença de sangue nas fezes ou na urina. Esses sintomas são alertas de que algo pode estar errado, por isso é importante procurar um médico, que avaliará a necessidade de fazer o exame preventivo, mesmo que durante a quarentena ou não”, alerta Dra. Ignez.


A IMPORTÂNCIA DOS EXAMES

Mesmo meses após o início da pandemia, a Covid-19 segue sendo um problema presente na vida de todos, e embora ela requeira muita atenção, a realização de exames de monitorização para outras doenças não pode ser esquecida. O acompanhamento médico segue sendo essencial, e a rotina de exames de prevenção precisa continuar ativa.

Entre os desejos do doutor Victor Sorrentino está o de que no futuro a sociedade possa aprender com os próprios erros. “A medicina tem muito a aprender com essa situação toda, mas acho que as pessoas de modo geral têm mais a aprender do que a medicina. Tomara que a história seja fidedigna, mas que no futuro a gente olhe para trás e pense: ‘Não vamos repetir isso nunca mais’. Porque deixar tantas doenças de lado pode, sim, ser considerado uma atrocidade”, conclui o médico.

0 comentário