Dublado ou legendado? A preferência dos brasileiros

O debate sobre a preferência no contexto cinematográfico e televisivo sempre existiu, mas tem aumentado nos últimos anos.


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Se tem um assunto que divide os fãs de séries e filmes é o eterno dilema: afinal, assistir ao conteúdo dublado ou legendado? Enquanto alguns preferem conteúdos dublados, para não perder nenhum detalhe enquanto leem as legendas, outros gostam de escutar o áudio original. A jornalista Beatriz Rocha Juncklaus está sempre procurando alguma coisa nova para assistir. Ela costuma escolher entre dublado ou legendado com base no gênero da atração.


“Não tenho nenhum tipo de preconceito. No caso das animações, eu prefiro assistir dublado, por exemplo. Mas todo o resto eu assisto legendado”, conta. Quando se trata de um filme que assistiu na infância, como Harry Potter, a jornalista também opta por assistir ao conteúdo dublado. “A memória afetiva é muito apegada àquelas vozes. Acho estranho assistir com o áudio original essas coisas que eu assistia quando era pequena”, explica.


Ainda no grupo das pessoas que são bem flexíveis na hora de escolher como consumir os conteúdos está o produtor multimídia Pedro Gonçalves. Quando são filmes e séries, ele assiste primeiro legendado, mas na maioria das vezes acaba vendo uma segunda vez, com o conteúdo dublado. “Vejo em inglês mais para conhecer o texto original do que por atuação de fato. Acabo assistindo dublado porque é uma área que tenho carinho há anos, então sempre faço questão de conferir. As versões brasileiras costumam trabalhar melhor a regionalização e adaptar piadas locais”, adiciona.


Uma pesquisa do Instituto Data Popular aponta que os conteúdos dublados são preferência de 76% da classe C brasileira ao assistir televisão. No entanto, os dados mostram que as Classes A e B não têm rejeição por conteúdos dublados, já que 49% das famílias nessa faixa também fazem essa opção. Esse é um dos principais fatores que motivaram grande parte dos canais de TV por assinatura a mudarem as programações, passando a exibir mais conteúdos dublados. No cinema, a opção de filmes dublados também é a que mais agrada à maioria dos brasileiros. A cada dez, seis preferem assistir a filmes dublados.


PLATAFORMAS DE STREAMING

Poucas plataformas de streaming já divulgaram dados relacionados ao tema. Mas, segundo a Netflix, os brasileiros preferem assistir a filmes e séries com dublagem em português. As estatísticas foram divulgadas no evento “Vive Netflix”, realizado no México. No entanto, a plataforma declarou que “quanto mais adulto o público, mais pessoas preferem ver legendado”.


O seriado 13 Reasons Why, voltado ao público jovem, foi assistido dublado por 84% dos assinantes brasileiros, enquanto 16% o assistiram em formato legendado. Já House of Cards tem uma divisão de 50%-50% entre preferências de exibição.



FERRAMENTAS DE ACESSIBILIDADE

É claro que escolher entre dublado ou legendado poderia ser só uma questão de preferência. Mas vai além disso: a dublagem e a legendagem são ferramentas de acessibilidade. A dublagem, por exemplo, é uma forma de entregar o conteúdo para pessoas cegas, àqueles que não saber ler ou que têm alguma condição que possa gerar dificuldade de compreensão, como dislexia.


A aposentada Eliza de Oliveira, 77 anos, perdeu parcialmente a visão por causa de um glaucoma. Hoje, não enxerga com o olho direito e tem pouca visão no olho esquerdo. Como sempre adorou assistir televisão, opta por conteúdos dublados. “Eu não tenho como ler uma legenda, não enxergo. Na realidade, priorizo conteúdos nacionais, mas quando quero assistir a alguma coisa de fora, opto por ver dublado”, frisa.


Por outro lado, produções legendadas são mais acessíveis a pessoas surdas, com perda de audição, ou para aquelas que têm hipersensibilidade auditiva, por exemplo. O publicitário Jorge Rodrigues, 25 anos, é surdo e consome filmes e séries apenas com legendas e closed captions — que são diferentes das legendas convencionais, já que indicam em palavras os outros sons do vídeo. Mas ele só consegue ler as legendas porque é bilíngue, ou seja, foi alfabetizado tanto em Português quanto em Libras, que é a Língua Brasileira de Sinais. O conjunto de sinais tem sua própria gramática e desde 2002 é considerado oficialmente um idioma.


“Sem as legendas ficaria inviável eu assistir qualquer conteúdo. Mas, o ideal é que tivesse a legenda e uma janela de intérprete de libras, já que nem todo surdo é bilíngue. Muitos surdos têm Libras como língua materna. É preciso oferecer pluralidade de acessibilidade, não só para os surdos, mas para os deficientes auditivos, autistas etc.”, defende.