EU TENHO AMIGOS. EU TENHO SORTE. EU TENHO UM NORTE.

Por Mareliza Cupolilo

Usualmente, os primeiros companheiros surgem quando entramos na escola. Várias crianças desajeitadas postas numa mesma sala, chorando de saudade dos seus pais e assustadas ao ver, naquele principiar da vida, outras tantas criaturinhas reunidas. A sinfonia dessa estreia é puramente estridente e desconcertante.


Mas, de improviso, uma mágica se opera: duas crianças se entreolham e esboçam compreender os desafios recíprocos, como num pacto incipiente de aceitação e respeito mútuos – embora completamente desprovidas de qualquer racionalidade.


Essa troca de olhares reverbera e fortalece aquela diminuta comunidade, que a cada dia se expande para agregar os outros pequeninos que haviam sido, aleatoriamente, reunidos na mesma sala de aula. Chega, então, um dia em que a criança, ao ser deixada no portãozinho do colégio, é recebida por todas as outras crianças com euforia e, unissonamente, chamada de ‘amiga’.


O tempo vai passando, e o círculo de camaradagem da infância tende à expansão. Outros tantos amigos vão sobrevindo às relações interpessoais, contribuindo para o crescimento da confiança e do respeito à diversidade.


Mas eis que todo ser humano cresce e descobre que, na maturidade, fazer amigos não é algo tão corriqueiro assim. Uma pessoa adulta carrega consigo a sua própria dose de frustrações e, por causa disso, todo mundo se torna um pouquinho São Tomé, pois precisa ver para crer. Ou melhor, precisa conhecer para confiar.


Antes que digam que se trata de uma visão pessimista, permitam-me acalmar os mais desapontados. As amizades feitas na idade madura são, verdadeiramente, saborosas. São laços atados sem pressa, com a matéria-prima mais selecionada que há. A experiência dos anos vividos nos torna exímios artesãos e, com muita habilidade, costuramos relações que nos caem como luvas.


A construção de uma amizade é obra feita com pelo menos quatro mãos, pois ter um amigo envolve sempre o coletivo. Uma pessoa sozinha não fabrica a amizade. Isso desafiaria as leis da física. Ou da filosofia.


A palavra ‘amigo’ vem do latim amicus, o que, possivelmente, advém de animi custas, que representa alguém que tenha a custódia de uma alma, ou melhor definindo: alguém que toma conta do outro


- Repitam comigo: alguém que toma cota do outro


Há coisa mais linda? Embora a amizade possa ser celebrada em datas distintas nos países afora, é inegável o fato de que ter um amigo merece ser festejado.


No Brasil, escolhemos o dia 20 de julho, dia em que o homem chegou à lua.


Há 52 anos, o primeiro homem pisava na superfície lunar. Três homens estavam a bordo da Apollo 11, numa aventura espacial que marcaria a história do mundo. Durante oito dias, Armstrong, Collins e Aldrin confiaram suas próprias vidas uns aos outros, como apenas os verdadeiramente amigos fazem.


Ao tocar a lua com seus pés, Armstrong disse que aquele era um pequeno passo para o homem, porém um grande passo para a humanidade.


Sem dúvidas, este foi mesmo um gigante feito, mas eu diria que a capacidade de tecer amizades foi o fundamental pontapé para se chegar ao espaço sideral. A continuidade evolutiva da espécie humana só ocorreu porque, desde o tempo das cavernas, as primitivas pessoas se reuniram e perceberam que juntas eram mais fortes. Sem as experiências partilhadas entre amigos, o homem – este ser social, por excelência – estaria fadado à extinção.


E assim, por meio das memórias cultivadas entre companheiros, vamos deixando registrada a nossa existência. Os amigos nos acolhem na tenra infância, nos acompanham na maturidade e nos amparam até o momento em que as cortinas se fecham e as luzes se apagam.


É, meus amigos... uma amizade é coisa séria.

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