Idosos e a liberdade no trânsito depois dos 60 anos


Foto: Arquivo Pessoal Arzemiro Demo

Ir ao supermercado, levar os netos ao shopping, uma visita ao médico ou simplesmente dirigir por aí. Chamar um motorista de aplicativo? Que nada. Dirigir o carro representa independência para muitos idosos, que muitas vezes são mais calmos e prudentes que muitos motoristas. Idade avançada está longe de ser fator determinante para uma pessoa parar de dirigir. Os especialistas garantem: o que importa é o estado físico e psicológico. O aposentado Arzermiro Demo, de 88 anos, continua dirigindo. Mas só na localidade onde mora, em Jacinto Machado, interior Catarinense, que tem pouco mais de 10 mil habitantes. “Sinto que meus reflexos não são mais como antes, estou mais devagar. Tenho que reconhecer a minha idade. Ainda me sinto em condições de dirigir, mas não vou para onde sei que o trânsito é mais intenso, em outras cidades, por exemplo. Não me sinto bem.”, explica.

Segurança em primeiro lugar

Seu Arzermiro renova a carteira de habilitação no mesmo local há 20 anos. Por lá, eles já

o conhecem e também conhecem o histórico de saúde. “Nessa última vez, mediram pressão arterial para ver se tinha alguma coisa e fizeram exames de visão. Essa parte foi mais complicada, porque foi em um aparelho novo que eu nunca tinha visto, então estranhei bastante. Mas passei em todos os testes.”, revela. Apesar de ter conseguido renovar a habilitação, o aposentado tem consciência da idade que tem, e pretende dirigir apenas enquanto conseguir manter, não apenas a própria segurança, mas a dos outros motoristas também. “Acho que não vou renovar na próxima vez. Se meu físico ficar como está hoje, talvez eu ainda tente. Mas como a previsão é piorar, acho que talvez seja melhor parar.”, garante.

Dados da ONU apontam que o mundo está no meio de uma transição demográfica única, que deve resultar em mais população de idosos em todos os lugares. Conforme mostram estudos, desde 2015, a projeção é de um crescimento de 3% de idosos ao ano e, em 2050, 30% da população terá mais de 60 anos no Brasil. Para que o trânsito seja seguro para todos, a autoavaliação é muito importante e a família também pode ajudar. É preciso reconhecer quando a visão já não está tão boa, ou ao sentir dificuldades para se integrar ao ritmo agitado do trânsito em alguns locais.

É o caso da aposentada Maria Salete da Boit Goulart, 68 anos. Ela, que decidiu aprender a dirigir aos 43, lembra com carinho da época de autoescola e testes. No entanto, optou por não revalidar a habilitação neste ano. “Tive carteira de motorista por 15 anos e nunca me limitei. Adorava ir à praia. Mas com o tempo, como comecei a tomar alguns medicamentos, comecei a ficar insegura.

Ficava um pouco tonta, com a visão meio embaçada. Decidi não renovar, até porque consigo fazer as voltas de carro com meu marido, que também dirige. Talvez seja um pouco de

acomodação também.”, conta.

Trata-se da velha premissa: cada caso é um caso. Enquanto alguns idosos não se importam tanto de ficar sem a habilitação, para outros isso significa uma grande alteração na rotina social. Visitas a casas de amigos e passeios podem ficar condicionados à disponibilidade de pessoas da família. Um outro problema é que, sem o carro, a alternativa é o transporte público que em muitos locais é precário, principalmente para os idosos.

O servidor público estadual Francisco Izidório de Melo ainda nem chegou aos 60 anos, mas já sabe a hora parar: quando tiver 75. Ele, que ainda está com 59 anos, planeja parar porque sabe das limitações físicas que vai ter. “Pretendo continuar renovando e cumprindo as determinações dos órgãos responsáveis durante esse período. Mas, depois, acho que não. Não deve ser tão difícil ficar sem dirigir, desde que haja transporte alternativo, preferencialmente público. Mas serviços como Uber, por exemplo, já usei e aprovo.”, revela.

Infrações de trânsito mais comumente cometidas por motoristas idosos:

  • desobediência a

  • sinais de parada e farol;

  • conversão proibida à esquerda;

  • efetuar retorno proibido;

  • ultrapassagem perigosa;

  • não circular pelo lado direito da via.

Foto: Freepik.com

Saúde do idoso

Entre os problemas de saúde que podem impedir um idoso de dirigir estão as doenças degenerativas do sistema nervoso central, como o mal de Parkinson e de Alzheimer que têm tendências à demência.

Pessoas que têm problema de catarata ou hipertensão e diabetes não controladas arriscam sua segurança no trânsito.”, explica a médica especialista em medicina de tráfego, Maria Seleste Fernandes de Sá.

O médico de tráfego é fundamental na realização do Exame de Aptidão Física e Mental (EAFM) para a diminuição da morbimortalidade dos acidentes de trânsito que envolvem condutores idosos. “Importante lembrar também que o exame não pode ser igual para todos os candidatos, ou seja, um exame de um jovem de 18 anos não pode ser o mesmo de um diabético, que usa insulina, de 50 anos e de um idoso de 80 anos.”, ressalta o presidente da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), Antonio Meira Júnior.

Em relação ao idoso pedestre, há um risco de acidentes, visto que a mortalidade por atropelamento é maior a partir dos 60 anos. A diminuição do nível de atenção leva a desrespeitar sinais de trânsito e a uma percepção limitada do risco. Por isso, é importante que o idoso, sempre que possível, caminhe por lugares conhecidos, faça uso de bengalas quando necessário, tenha cuidado com pisos escorregadios, atravesse a rua sempre nas faixas de segurança para pedestres.

Legislação

O Código de Trânsito Brasileiro não determina com que idade as pessoas precisam parar de dirigir e nem a idade máxima para requerer ou renovar a Carteira de Habilitação. A decisão sobre a idade máxima para dirigir um carro tem que ser baseada em exame médico. Até os 65 anos, o exame validade é renovado a cada cinco anos; após 65 anos, a cada três anos. Mas isso pode mudar em breve. O projeto de lei 3267/2019, promete flexibilizar a lei sem colocar em risco a segurança no trânsito. A ideia é fixar a periodicidade de três a dez anos, de acordo com a idade do condutor, para a renovação do exame de aptidões física e mental exigida para tal função. O projeto amplia o prazo para a renovação dos exames de aptidão física e mental para a renovação da CNH, de acordo com as seguintes situações:

  • 10 anos para condutores com menos de 50 anos;

  • 5 anos para condutores com idade igual ou superior a 50 anos e inferior a 70;

  • 3 anos para condutores com 70 anos ou mais.

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