Indústria musical: desafios e soluções durante a pandemia da Covid-19

O período de isolamento social pode ter afetado o setor de eventos, com o cancelamento de shows e festas, mas também trouxe inovações


Foto: Rodolfo Magalhães

Nos últimos meses, a indústria da música foi duramente atingida pela pandemia da Covid-19. Embora o consumo on-line tenha aumentado – o Spotify, por exemplo, teve um grande crescimento nas assinaturas pagas – artistas, gravadoras e empresários precisaram encontrar novas maneiras de conectar-se com os fãs e gerar receita. Alguns chegaram a hesitar, como Lady Gaga, que adiou e depois lançou ‘Chromatica’, o álbum dela que marca o retorno ao pop.


Outros mergulharam de cabeça no período e assumiram completamente os riscos, como Dua Lipa, que lançou o ultra pop retrô ‘Future Nostalgia’. A cantora britânica não se intimidou com a pandemia e realizou divulgações ao redor de todo o mundo: seja com apresentações pré-gravadas ou entrevistas por videoconferência.


“A pandemia tem impactado, imensamente, a indústria da música e do entretenimento na forma tradicional de ganhar dinheiro, porque não podemos ter shows ao vivo. Mas, assim como em tempos de guerra ou recessão, é aí que surgem as maiores ideias e novas formas de entretenimento”, disse ao Central Time, Andres Recio, empresário da cantora pop internacional Alessia Cara.


Durante a quarentena, a artista também participou de vários projetos, como o MTV Unplugged a distância, além de lançar algumas músicas, como ‘I Choose’, escrita especialmente para a animação da Netflix ‘Willoughbys’. Toda a divulgação precisou ser feita de forma diferente do tradicional.


O mesmo caso ocorreu com o cantor brasileiro Vitor Kley, que já havia finalizado o álbum ‘A bolha’ antes do início da pandemia. No entanto, o lançamento do material estava previsto para ocorrer justamente no período em que começou a quarentena no Brasil. Para poder participar de entrevistas e divulgações, o artista precisou se preparar para fazer tudo da forma correta. Muitas vezes, precisou se virar sozinho e montar todo o equipamento. Até alguns clipes para a divulgação das canções foram gravados durante o isolamento social, com orientações a distância de produtores e diretores. Afinal, o artista, que em 2020 chegou a ser indicado ao Grammy Latino, não poderia deixar de trabalhar na divulgação do trabalho mais experimental da carreira.


Um dos videoclipes do álbum foi gravado durante uma viagem que o cantor fez a Portugal, para visitar a namorada, a atriz portuguesa Carol Loureiro. O vídeo, que ilustra a música ‘Ainda Bem Que Chegou’, foi totalmente filmado com um celular, por Carol, nos fundos da casa da atriz. Sem precisar de cenários grandiosos, figurinos extravagantes e um grupo de profissionais, os dois apostaram em um clipe simples e intimista. De acordo com Vitor, a ideia de uma produção surgiu pelo afeto que o cantor e a namorada têm pelo país.


Ele reconhece que precisou se reinventar durante a pandemia, mas que tem uma visão otimista para o futuro. “Sou artista de palco, gosto de estar ali cantando e dançando. Fiz as músicas imaginando o show, como seria a galera pulando com os refrões e, de repente, isso não pode ser feito como antes. Mas vamos passar por isso e nos encontrarmos no show depois”, enfatiza Vitor Kley.


Composto, gravado e lançado na pandemia

Também em um clima intimista, o álbum novo de Adriana Calcanhotto, intitulado ‘Só’, foi composto, produzido, gravado e mixado em 43 dias, entre 27 de março e 8 de maio. ‘Margem’, o trabalho anterior de Adriana, que foi lançado em 2019, trazia uma década de elaboração e sete anos de ausência de gravações de estúdio.


“Em 11 dias, eu tinha meia hora de música”, diz a cantora e compositora. Apesar da declaração, a artista garante que o disco não foi feito às pressas. O álbum ‘Só’ é fruto de um método tão novo para Adriana quanto adaptado ao que o mundo se tornou com a proliferação da Covid-19.


Ela foi impedida de voltar para Coimbra, em Portugal, onde leciona e é embaixadora da universidade que carrega o nome da cidade. No Rio de Janeiro, seu relógio artístico passou a despertá-la todos os dias com o desafio de compor uma música até a hora do almoço. “Como se tivesse a missão de fazer pão todos os dias. Mas não sei fazer pães, só sei fazer canções”, brinca.


O sentido é completo pela temática das músicas, pela ordem cronológica de composição em que as nove faixas formam o repertório do disco e pela forma com a qual foi arranjado, gravado e produzido, entre São Paulo, Rio, Belém, Salvador, Orlando e Tóquio. Quem encabeçou a produção com Adriana foi o compositor Arthur Nogueira.


Junto ao álbum, ela lançou, sob a direção de Murilo Alvesso, a versão audiovisual de ‘Só’ em um grande clipe-sequência de todas as músicas registradas no quarto da artista. “Com todo o cuidado na gravação”, faz questão de garantir o fotógrafo e diretor. Como bem diz Adriana, enquanto compunha e lançava o álbum “O planeta respira”.


Lives Musicais

Seria difícil falar de inovação durante a pandemia sem citar as lives musicais, que ganharam um novo conceito e dominaram o mundo do entretenimento durante a quarentena. A impossibilidade de formar aglomerações deu origem ao conceito de espetáculo virtual. O que começou simples ganhou proporções gigantescas, principalmente com os artistas sertanejos. Muitas, inclusive, tiveram caráter beneficente.


Um dos primeiros shows realizados pela internet, durante a pandemia, foi o do vocalista do Coldplay, Chris Martin, por meio do Instagram, no início de março. Martin fez uma parceria com a Global Citizen para promover a campanha #TogetheratHome, em apoio à Organização Mundial da Saúde. Vários outros artistas participaram, incluindo John Legend, Pink e Keith Urban.


No Brasil, o show realizado por Gusttavo Lima, no fim de março, marcou o início de uma fase que duraria um bom tempo por aqui. A live do cantor ficou no ar por mais de cinco horas e inspirou dezenas de outros artistas a seguirem a receita.


A música ganhou um papel importante em todo o mundo para trazer entretenimento durante o isolamento social. Artistas de vários países realizaram lives musicais, mas nada com tanta paixão quanto os brasileiros. A jornalista Aline Araújo assistiu a algumas apresentações pela internet e conta que teve uma boa experiência. “As lives não têm a mesma emoção do show, mas são uma forma de estarmos perto dos artistas que admiramos. Ouvir o repertório ao vivo é mais contagiante e diferente do que colocar só uma música para tocar. Tudo isso no conforto de casa”, defende.


De acordo com dados do Youtube, das dez lives mais assistidas do mundo durante a pandemia, seis são de artistas brasileiros. Os números levam em consideração os maiores picos de audiência com visualizações simultâneas.


Entre os sete shows brasileiros mais assistidos no mundo, apenas uma transmissão, a da dupla Sandy & Junior, não é do gênero sertanejo. A dupla, que realizou a live logo após finalizar a turnê em comemoração aos 30 anos de carreira, reuniu mais de 2 milhões e 550 mil pessoas simultaneamente.

Nas lives sertanejas, o maior destaque fica por conta de Marília Mendonça, que aparece duas vezes no Top 10, incluindo o primeiro lugar, com mais de 3 milhões e 300 mil visualizações simultâneas.

O segundo lugar do ranking fica com Jorge & Mateus, à frente do show do cantor italiano Andrea Bocchelli, que se apresentou na Catedral de Milão vazia durante o domingo de Páscoa. O tenor é seguido por Gusttavo Lima, que atingiu 2,77 milhões de visualizações simultâneas. Uma delas foi a do casal catarinense Morgana Salvador e Edvan Dagostim. “Assistimos do começo até o final. Foi praticamente uma festa aqui em casa.


Bebemos e comemos muito, foi extremamente divertido. Acredito que naquele momento precisávamos de alguma coisa diferente para fazer, e esse show do Gusttavo Lima caiu perfeitamente”, contam.


Já o polêmico ‘Cabaré’ ao vivo, de Leonardo e Eduardo Costa, aparece em sexto lugar na lista, com 2,52 milhões de visualizações. Os brasileiros Henrique & Juliano também estão no Top 10 com a nona live mais assistida do mundo. Entre os artistas internacionais, quem também se destaca na lista é o grupo de k-Pop BTS, que reuniu mais de 2 milhões de espectadores simultâneos durante a apresentação transmitida direto da Coreia do Sul.


Quanto custa uma live?

Durante a alta das lives, no primeiro semestre de 2020, os cachês para shows fechados – on-line ou não – chegaram a custar o dobro do valor normal. Isso foi o que apontou uma matéria da Rolling Stone Brasil. Além dos cachês, os artistas também podiam lucrar com os patrocinadores, que custavam, em média, de R$ 120 mil a R$ 300 mil. O pagamento dava direito à aparição das marcas na tela durante a live e também nos materiais de divulgação.

Pessoas ligadas à indústria musical confirmam que, em uma de suas lives, Gusttavo Lima, por exemplo, recebeu cerca de R$ 3 milhões. Cada patrocinador precisou desembolsar valores entre R$ 400 mil e R$ 1 milhão.


Assinaturas de streaming crescem


Com a pandemia, os artistas também precisaram contar com outras rendas. Uma das fontes mais importantes é a de royalties relacionados ao streaming. Em março, no início da quarentena em todo o mundo, um susto: por três semanas seguidas, os números caíram. A queda foi de 2% na primeira semana; depois, 8,8%; e, por fim, 3,2%. Mas, no fim de março, os números já subiram, aponta a Forbes.


A partir daí, os resultados foram excelentes. As assinaturas apresentaram um crescimento de 35% durante a pandemia. Os dados são referentes ao primeiro trimestre de 2020 e foram levantados pela empresa Counterpoint Research. Serviços como Spotify, Apple Music e Amazon Music alcançaram um total de 394 milhões de assinaturas. O crescimento é de 35% em relação ao ano anterior.


Sobre os rendimentos, o Spotify foi o que acumulou a maior fatia do mercado, com 30%, seguido pela Apple Music, com 25% durante o período. O Amazon Music chega na terceira colocação, com 12%, e crescimento de 104% no número de assinaturas entre 2019 e 2020.

O YouTube Music aparece em quarto lugar, com uma parcela de 9%, e é acompanhado pelo Pandora, em quinto, com 5% de participação no mercado global. Os demais serviços de streaming acumularam um total de 19% de receita durante os três primeiros meses de 2020.

0 comentário