Lugar de fala, qual é o seu?

Foto: Rodolfo Bonifácio


Opressão, privilégios, minorias sociais. Nas últimas semanas, a internet passou a viver com mais intensidade discussões sobre o racismo, com frases que ecoam apoio, resiliência, compromisso e coragem para enfrentar a causa, porque “vidas negras importam”. O fenômeno que fez com que termos, textos e teorias estivessem em debates foi, também, silenciado por pessoas e até empresas que mais desejavam se isentar de culpa, na construção de uma sociedade que até apoia, mas não reconhece o seu próprio “Lugar de Fala”.


A pergunta que não cala é “O que as pessoas ainda precisam aprender sobre o racismo?”. A resposta, de uma mulher preta e periférica, foi devolvida em um misto de alegria, por mais uma oportunidade de transbordar o assunto, bem como de sanar dúvidas sobre o que mais ainda precisa ser dito para que as pessoas aprendam e reconheçam o erro.


Essa mulher, preta e periférica, é Amanda da Cruz Costa. Aos 23 anos e, negra há pouco mais de um ano, já foi descrita com todos os eufemismos possíveis, branqueada em casa, na escola, nos clubes e na universidade. “Antes eu era moreninha, mulata, parda ou cor de bombom. Aos olhos de uma sociedade que caracteriza a beleza branca como superior e dominante, ser preta e ter o cabelo crespo não contribuía para a minha inserção nos grupos sociais”, conta.


Com formação em Relações Internacionais, já viajou para seis países, participou de duas conferências das Nações Unidas (ONU), é Global Shapers do Hub SP (Fórum Econômico Mundial), líder em mudanças climáticas pelo Youth Climate Leaders (YCL) e líder em sustentabilidade pelo United People Global (UPG). “É difícil reconhecer que negros não são sempre miseráveis e não es - tão sempre em posições subalternas?”, questiona.

Apesar de muitas conquistas, para ela, não foi tão fácil se declarar negra. “Há um estigma social causado pelo racismo, intensificado pela percepção de que somente as pessoas de pele retinta e cabelo crespo são realmente negras. Muitas vezes, sou a única negra nos espaços em que transito e, talvez, seja esse o motivo de ouvir que não sou negra, sou moreninha”, completa.

Como combater o racismo?

No combate ao racismo, alguns passos são necessários. O primeiro, é entender o que é e reconhecer que o problema existe e que, de fato, há uma dívida histórica. Em sequência, deve-se conhecer o sistema, entender onde você se encaixa nisso, falar a partir do seu conhecimento (Lugar de Fala) e transbordar o tema.

“A sua cor ou raça é: branca, preta, amarela, parda ou indígena?” Nessa ordem, o agente de pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) oferece as opções e o entrevistado escolhe como se classifica. O que ele considera resposta dependerá de cada um, pois o quesito de cor ou raça é baseado na autodeclaração.

No cotidiano, na tentativa de identificar de forma certa as pessoas, algumas dúvidas surgem, entre elas sobre chamar as pessoas de pretas ou negras.

O fundador do Diário Antirracista e ex-coordenador do Movimento Acredito e Educafro, Samuel Emílio, traz algumas reflexões, como, por exemplo, “Por que não chamar pelo nome? Ou perguntar: como você gostaria de ser chamado?”, indaga.


Ainda, segundo o IBGE, as estatísticas mostram que o Brasil está muito longe de se tornar uma democracia racial. Em média, os brancos têm os maiores salários, sofrem menos com o desemprego e são maioria entre os que frequentam o ensino superior, por exemplo. Já os indicadores socioeconômicos da população preta e parda, assim como os dos indígenas, costumam ser bem mais desvantajosos.




Isso porque, segundo alguns estudiosos, mesmo após 132 anos de abolição, ainda é muito difícil para a população negra ascender economicamente no Brasil. A questão da escravidão é uma marca histórica. Durante esse período, os negros não tinham nem a condição de humanidade. E, pós-abolição, não houve nenhum projeto de inserção do negro na sociedade brasileira. Mesmo depois de libertos, ficaram à própria sorte. Então, o Brasil vai se estruturar sobre aquilo que chamamos de racismo institucional.

Racismo Institucional

Segundo o Instituto Geledés, o Racismo Institucional é, por vezes, desconhecido e, outras, confundido com a injúria racial ou com o preconceito racial genérico. “É basicamente o tratamento diferenciado entre raças no interior de organizações, empresas, grupos, associações e instituições congêneres. Em resumo, e de forma coloquial, considerando a problemática singular entre negros e brancos, é você tratar o negro de uma forma e o branco de outra. É você optar por um em prejuízo do outro, ou mesmo preferir, ou até, de forma indireta, ofertar tratamentos diferenciados, de modo a privilegiar um em detrimento do outro, sem qualquer respaldo legal”, explica.

Despertar

“Quando minhas reflexões sobre raça, classe e gênero começaram, tive a “epifania da negritude” e percebi o quanto a minha existência havia sido embranquecida. Se queremos transformação social, precisamos questionar os padrões dominantes. No senso comum, a mulher negra não pode ser referência, protagonista ou especialista em algum tema específico. E se ela ocupa essa inusitada posição, espera-se que ela permaneça em silêncio e não conteste o sistema social vigente. Contar a minha história passou a ser um ato fundamentalmente político, assim como expressar a minha identidade como mulher negra e periférica”, conta Amanda.

Para uma mulher, preta, periférica, militante da autoestima, rebelde do sistema patriarcal, ativista climática, apaixonada por Jesus e quebradora de rótulos, as pessoas que inspiram são aquelas com quem convive, bem como referências que buscam o mesmo propósito. Da mesma forma que meu corpo guardou a cor da pele, minha ancestralidade afro guardou a negritude como herança genética”, declara Amanda.


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