Maçonaria: discreta, mas não secreta


Fotos: GOB

Prestes a completar 200 anos no Brasil, uma das organizações mais antigas do país tem investido em inovação sem deixar de lado os valores tradicionais


Nos primeiros 40 anos da República, todos os presidentes brasileiros eram maçons, reflexo da influência da maçonaria na sociedade, que naquela época já tinha compromissos muito claros: conquistar a emancipação política do Brasil e consolidar o sentimento de nacionalidade. A história dos maçons confunde-se com a história do país. A maçonaria esteve à frente do movimento de independência, trabalhou pela abolição da escravatura e pela proclamação da República.


“Nos orgulhamos muito desses fatos, mas estamos sempre com o olhar na atualidade. A maçonaria é progressista. Hoje, nossa preocupação é com a educação, que precisa ser uma prioridade. Os orçamentos públicos têm que voltar suas atenções para a ciência, pesquisa e tecnologia. Nós temos compromissos desde nossas origens com o que pode representar avanço”, conta o Grão-mestre geral do Grande Oriente do Brasil (GOB), Múcio Bonifácio Guimarães.


O Grande Oriente do Brasil, que está prestes a completar 200 anos, foi a primeira organização maçônica brasileira. Surgiu no Rio de Janeiro em 1822, ano que marca a criação das primeiras lojas – como são chamados os grupos de membros locais nos municípios. Por muito tempo, as lojas do GOB foram as únicas, mas ao longo dos anos a maçonaria foi se diversificando.


ORIGEM

A primeira vez que grupos maçônicos se organizaram oficialmente foi em 1717, quando foi fundada a United Grand Lodge of England – A Grande Loja Unida da Inglaterra. Segundo a própria potência, as questões de quando, como, por que e onde a Maçonaria se originou ainda são objeto de intensa especulação. Mas o consenso entre os estudiosos é que a maçonaria foi herdada da organização dos pedreiros operários que construíam as grandes catedrais e castelos na Idade Média. Na época, eles eram conhecidos por serem autônomos e por conhecer o segredo das grandes construções. Com a chegada da Idade Moderna, os reis passaram a investir em outras áreas, deixando as construções de lado. Como não tinham mais onde aplicar as técnicas de construção, os homens foram obrigados a mudar de profissão, mas continuaram se reunindo para conversar.


LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE

Diferente do que muitos acreditam, a maçonaria está longe de ser uma sociedade secreta. Ela é, no máximo, discreta. O objetivo é reunir membros comprometidos com mudanças sociais positivas. Nos templos, conversam sobre o desenvolvimento da sociedade e se juntam para estudar. A organização se diz uma instituição filosófica, progressista, filantrópica e evolucionista e tem como lema: liberdade, igualdade e fraternidade. Os maçons chamam uns aos outros de irmãos. Todos com um compromisso em comum: ajudar uns aos outros.


“Alguns segmentos da sociedade têm uma visão equivocada da atividade maçônica, talvez por causa de alguns campos religiosos e, propriamente, por desconhecimento do labor maçônico, dentro e fora dos templos. Ainda existem muitos tabus a serem quebrados. No Brasil, chegamos a ter uma fase dura, quando o ex-presidente Getúlio Vargas proibiu as atividades maçônicas no país. Em nível de mundo, tivemos perseguições muito fortes na Alemanha, com Hitler, e na Itália, com Mussolini”, avalia o Grão-mestre.


CRENÇA EM UM SER SUPREMO

A maçonaria não é uma religião, mas exige dos membros que acreditem em um criador, denominado “Grande Arquiteto do Universo”. Segundo o Grão mestre do GOB, o candidato a maçom deve, desde o início, deixar claro que acredita num ente superior, podendo ser: Deus, Maomé ou outro, reconhecido pela fé do postulante ou interessado a ser admitido nos mistérios da ordem maçônica regular. “Não existe nenhum início de trabalho maçônico sem que seja evocado o nome de um ser supremo. Geralmente, usa-se um livro sagrado, que pode ser a bíblia, no caso dos cristãos”, revela.


O candidato a maçom também deve ter “um bom passado, sem mácula e comprometimento com a sua família”. Quando aceito, deve assumir um compromisso de frequência. Tradicionalmente, os candidatos eram indicados por membros da maçonaria, mas, hoje em dia, isso tem mudado. No caso do Grande Oriente do Brasil, quem quiser ser maçom pode preencher um formulário no site oficial e iniciar o processo de forma digital. As lojas maçônicas fazem a avaliação e o processo pode demorar alguns meses. Esta forma de ingresso não é regra para todas potências maçônicas, pois existem as mais conservadoras.


RITOS

Embora estejam divulgando cada vez mais as suas práticas, os maçons mantêm rituais reservados apenas aos iniciados. No caso do Grande Oriente do Brasil, são praticados sete ritos. Cada loja, dependendo da localidade, faz opção por um, que tem procedimentos específicos. De acordo com o GOB, o rito mais adotado no Brasil é denominado REAA – Rito Escocês Antigo e Aceito, mas todos têm, ao final, o mesmo objetivo.


CUMPRIMENTOS SECRETOS E COMO SE IDENTIFICAM

É verdade que os maçons se identificam por toques, palavras e sinais. A prática serve, principalmente, para que os membros se reconheçam ao redor do mundo, mesmo sem se conhecerem. Mas também existem outros meios de reconhecimento. “Estamos em época de inovação. O GOB criou recentemente o e-GOB card, que é um cartão que tem um código QR. Existem ainda outras maneiras de conhecer um maçom? Existem. Mas essa adequação com o século XXI vai ocorrendo aos poucos”, assegura o Grão-mestre.