Maternidade, registros culturais e reflexões cotidianas

Por: Mareliza Cupolilo

Foto: Davi Nascimento

Eu bem que avisei: era melhor costurar logo os meus botões. Como isso não aconteceu, cá estão eles para uma nova conversa!

Desde que me tornei mãe, certas ponderações tomaram maior corpo e relevância no meu cotidiano. O desejo visceral de preparar pessoas de bem, para o mundo exige o confronto com as nossas próprias certezas e a busca contínua por versões melhores de nós mesmos. E, dentro dessa perspectiva, a reflexão cada vez mais aprofundada sobre o papel das mulheres na sociedade vai ganhando contornos mais definidos. Some-se a isso, a clara percepção de que muito já foi feito, mas ainda existe um percurso incalculável a ser trilhado.

A Revolução Francesa, datada de 1789, é o marco divisor entre a Idade Moderna e a Idade Contemporânea, e é bem nesse contexto histórico que, em Reims, cidade próxima a Paris, nasceu a menina Barbe-Nicole Ponsardin, que veio a se tornar mundialmente conhecida como Veuve Clicquot.

Sempre guardei particular admiração pela figura da mulher que estampa os produtos e os invólucros do champanhe mais famoso do planeta. Mas saber um pouco mais da sua história fez crescer uma estima imensurável.

Em 1805, Barbe-Nicole tornou-se viúva, aos 27 anos de idade, com uma filha criança sob seus cuidados, e responsável pela empresa de vinhos – ainda instável –, que ajudara a criar com o marido.

Naquela circunstância social e jurídica, início da vigência do código civil napoleônico, as mulheres eram relegadas a uma existência subalterna, fosse em relação ao pai ou ao marido. A única situação em que uma mulher obtinha o direito de gerenciar a própria vida era, exatamente, quando se tornava viúva.

Foi, então, que Barbe-Nicole decidiu que não se casaria novamente. Assumiu, em definitivo, a assinatura “Veuve Clicquot”, ou seja, a Viúva Clicquot, e passou a gerir a empresa familiar. Inúmeros desafios se perfilaram à sua frente. Foi preciso vender objetos pessoais, buscar empréstimos e lidar com preocupações inimagináveis, mas Barbe-Nicole não deixou de acreditar no seu projeto pessoal e profissional.


Foto: Juliana Borges

Trabalhava com imenso afinco e conhecia cada etapa do processo produtivo, o que lhe permitiu criar ferramentas e inovar na fabricação, sempre guiada pela máxima de que o seu champanhe contava com “uma única qualidade: o melhor”. Aos 40 anos de idade, aquela mulher inteligente, visionária e empreendedora havia se tornado uma das mais ricas e poderosas da Europa.

“Quando pensamos na conjuntura histórica de Veuve Clicquot, ou melhor, de BarbeNicole, ocorrida há mais de 200 anos, nos perguntamos se as coisas mudaram tanto assim.”

Séculos se passaram e as mulheres seguem sendo julgadas segundo a métrica masculina. Aparentemente, ainda hoje, para validar o sucesso de uma mulher, antes de mais nada, é necessário buscar o aval masculino.





Leia mais

A Viúva Clicquot, de Tilar J. Mazzeo: A história de um império do champanhe e da mulher que o construiu.


Julgamentos em pleno século XXI

Ilustrando melhor o que digo, poderia, por exemplo, referir-me ao fato comum de que quando as pessoas mencionam o nome de uma mulher, também acrescentam o nome de algum sujeito possuidor. Ou seja, não falam da Maria, mas sim da “Maria do fulano”. A “Maria” autônoma e independente, quase nunca é suficiente para a sociedade. Há poucos dias, li uma matéria que buscava enaltecer a modelo e apresentadora de TV, Mariana Goldfarb. Contudo, o próprio autor do texto fez questão de se esquecer das referências à trajetória profissional de Mariana e se limitou a apresentá-la como “a namorada de Cauã Reymond”.