O ano de 2020, a pandemia e as crianças de agora

“Filha, o ano em que você nasceu foi muito especial. Muitas coisas estavam acontecendo e, por um tempo, elas mudaram o jeito de fazer tantas outras coisas no mundo todo. O modo como as crianças estudavam, a forma que as pessoas trabalhavam, o que elas conversavam, bem como a sua vinda nos ensinaram coisas ainda mais valiosas do que elas seriam se acontecessem em qualquer outro ano. Percebemos que, diante das adversidades, quando algumas coisas estavam ainda mais complicadas, existiu beleza naquilo tudo, porque permitiu que estivéssemos com você de um jeito que não seria possível em outras épocas”.

Em uma noite fria de uma segunda-feira de agosto do ano de 2020, em meio ao enfrentamento ao Coronavírus, cada uma dessas palavras foi dita em voz baixa e tranquila à pequena Gabriela, nascida em 10 de junho de 2020, filha de Luiz Eduardo Wanrowsky Fissmer e Mariane Fissmer.


Foto: Arquivo Pessoal Luiz Eduardo Wanrowsky

As visitas restritas da quarentena, que buscam minimizar as contaminações por Covid-19, deram espaço à atenção exclusiva da chegada desse novo membro da família. “A todo momento, a mamãe ficou focada em fazer a amamentação dar certo, recebendo todo incentivo possível, tornando real o aleitamento materno. Em casa, com visitas restritas, conseguimos ficar ainda mais conectados entre nós. No entanto, as manifestações de amor e carinho da família e dos amigos queridos chegaram a nós de todas as formas possíveis.”, conta Mariane.

“Lá na frente, quando formos contar a ela sobre 2020, diremos que foi um ano mágico, de mudanças e revelações. A chegada dela iluminou nossas vidas e tornou tudo possível. Aprendemos muito com a Gabriela e com algumas mudanças que estavam ocorrendo. A nossa convivência foi intensa e reveladora. Desejamos que ela possa estar preparada para os obstáculos que por ventura possam surgir em seu caminho, porque a vida é assim: uma incrível e envolvente incerteza com muitas surpresas adoráveis.”, compartilha a mãe.


Foto: Arquivo Pessoal Mariane Fissmer

No dia do nascimento de Gabriela, em Santa Catarina, mais de 12 mil pessoas estavam contaminadas e lutavam contra o vírus. Em nível nacional, o número de pessoas com Covid-19 era de 775.184, e mais de 39 mil vidas interrompidas pelo Coronavírus.

Setembro de 2020

Na publicação desta edição da Revista, o país e o mundo continuam em constante cuidado:

  • o uso de máscaras é obrigatório;

  • a higienização frequente das mãos;

  • a aferição de temperatura em empresas e estabelecimentos comerciais, dentre outros.

No estado Catarinense, as Unidades de Terapia Intensiva (UTI) seguem com capacidade máxima de ocupação e a contaminação continua ocorrendo. Em outros regiões do Brasil, a situação está amenizando, mas porque elas passaram por momentos mais intensos antes. O que muito se fala hoje, nos telejornais, portais e rádios é sobre a produção da vacina, que está em fase de estudos e é uma esperança para o mundo todo.

“Faz parte da psicologia positivista e cognitivo comportamental, por exemplo, premissas de nos basearmos nos aspectos positivos e que nos fazem bem, apesar de tantas situações negativas que vivemos. Como disse Viktor Frankl, neuropsiquiatria austríaco – que passou por uma experiência dramática em quatro campos de concentração nazista, – Você não é produto de suas circunstâncias. Você é produto das suas decisões.”, compartilha a psicóloga e psicoterapeuta, mestre em educação e doutora em psicologia, Viviane Pessi Feldens.

Segundo a profissional, “O ano de 2020 pode ser contado como um ano de transformações mundiais, um marco histórico triste, mas que, como todas outras crises históricas, trouxe momentos de resiliência, criatividade e adaptação. Um ano em que veio à tona a nossa fragilidade e muitos desafios no quesito “superação”.

Que fez com que a insegurança levasse à reflexão do quanto era importante um abraço, diante da obrigatoriedade da separação dos corpos. Que fez avaliarmos o tempo dedicado à família com mais qualidade, ao mesmo tempo que ficamos reféns do contato virtual. Que equiparou as classes na questão da suscetibilidade e pequenez frente ao inimigo viral. Que fez com que se trouxesse à tona a importância do investimento na ciência e seus profissionais, mesmo com grandes incongruências e negações que apareceram. Que mostrou que profissionais de saúde deram suas vidas, literalmente, pelas nossas, e que foram verdadeiros anjos da guarda no mundo todo. Que foi um ano ímpar, que deve ser dedicado às mudanças internas, por meio da reflexão sobre o luto de tantos mil, dos sacrifícios de tantas pessoas pelo nosso bem.”, sugere Viviane.

Lembranças

Para aqueles pais que desejam contar com mais detalhes sobre o período vivido, demonstrando os sentimentos, podem aproveitar a criatividade. “Escrever um diário, por exemplo, é sempre uma linda lembrança, mesmo que de momentos tristes, porque no futuro será um registro de vivências e sentimentos passados pelos pais e familiares, lições de vida. Não será só uma ajuda na compreensão das crianças no futuro, como uma maneira do próprio adulto clarear pensamentos, sentimentos, processar acontecimentos passados e presentes e acompanhar sua evolução nas próprias perspectivas. Outra opção é uma caixa do tempo, com recortes de notícias, fotos impressas de momentos vividos em família durante a pandemia, trabalhos e atividades manuais realizados neste período e, quando a criança tiver capacidade de compreensão, presenteá-la com a caixa e a história, que faz parte da vida dela.”, conta a psicóloga.

Consequências

Outros fatos históricos fizeram parte da vida de muitos seres humanos e, segundo estudos, deixaram rastros de problemas de saúde mental por anos. “Em relação às crianças muito pequenas, a tendência é esquecerem com mais facilidade, desde que não tenham perdido algum ente querido, por exemplo. No entanto, tudo depende de como os pais repassam as informações e o quanto informam. É preciso ter cuidado com o pânico instaurado dentro de casa, assim como é importante filtrar as notícias. É preciso explicar, sim. Mas, adequando à compreensão cognitiva possível da idade dessa criança. Do contrário, serão gerados traumas desnecessários. Embora um pouco mais “maduras”, crianças que recebem informações alarmantes podem ter dificuldade e por um tempo maior, já que o sistema de alerta – que causa o estresse depois de tanto tempo ativado – demora a se adaptar novamente.”, explica Viviane.

Para as crianças que ainda não nasceram, alguns cuidados também são importantes. Isso porque, mesmo durante a gestação, acredita-se que o bebê pode ser afetado pelos sentimentos vivenciados pelos pais. De acordo com a profissional, o bebê e as crianças em geral são verdadeiras antenas, que registram tudo o que os pais nem imaginam que repassam a elas, seja pela linguagem verbal ou corporal. Pais ansiosos, por exemplo, não conseguem isolar esses sintomas e a criança sente isso. “Pesquisas já constataram que, quando o nível de cortisol – hormônio associado ao estresse – está alto na corrente sanguínea da mãe, também é encontrado em maiores quantidades no líquido amniótico. Há estudos, inclusive, que associam essa experiência vivida pelo bebê, no período intrauterino, à maior disposição para desenvolver Transtorno do Deficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e também níveis mais baixos de Quociente de Inteligência (QI) no futuro.”, compartilha.


Foto: Davi Nascimento

Para contribuir com o desenvolvimento do bebê e de construção familiar, a psicóloga sugere que os primeiros vínculos dos pais priorizem o afeto e a proteção. E isso segue na primeira e na segunda infância, ou melhor, pela vida toda. “A estrutura de amor, preocupação e cuidado cria uma sincronia que deixa a criança se sentindo segura, melhorando suas conexões cerebrais e estruturando sua personalidade mais equilibradamente.”, completa Viviane.

Leia mais

  • O Cérebro da Criança: Estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e a ajudar sua família a prosperar. SIEGEL, Daniel. BRYSON, Tina Payne. Ed. Inversos

  • Educação Emocional Positiva: Saber lidar com as emoções é uma importante lição. RODRIGUES, Miriam. Ed. Sinopsys.

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