O novo normal: aulas a distância e muita criatividade para entreter os pequenos


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Desde o início da pandemia da Covid-19, a rotina para milhares de pessoas, em todo o mundo, foi transformada da noite para o dia. A adaptação, ao que muitos chamam de novo normal, tem sido necessária. Entre regras de higiene, distanciamento social e o uso obrigatório de máscara, quem também sofreu com as mudanças foram as crianças. Agora hábitos como acordar, se arrumar e ir para a escola já não fazem mais parte do dia a dia. Isso porque, em meados de março, as escolas tiveram as aulas presenciais suspensas e, desde então, as famílias vêm se reinventando.

A rotina na casa da contadora, Glaucia Cardoso Batista Mello, mudou completamente. Por lá, os filhos, um de 12 anos e uma de sete, costumavam acordar cedo e logo sair para a escola. Agora, a realidade já é outra. “Eles dormem até mais tarde. O mais velho aproveita bastante o tempo livre para jogar videogame e conversar com os amigos. A mais nova gosta de brincar e assistir televisão. Aos fins de semana, quando estou de folga, busco trazer atividades diferentes e deixá-los um pouco longe da tecnologia. Nós já fizemos uma festa junina em casa, uma caça ao tesouro e até bingo. Sempre atividades para completar o dia deles e não deixar muito espaço para sentir falta de sair”, compartilha a mãe.

Mas, nem sempre foi assim. Muita conversa e paciência foram cruciais para ensinar e explicar aos filhos que as coisas agora precisariam ser diferentes. Glaucia relembra que no início, principalmente, não foi fácil. Como a profissão de contadora exigiu muito durante as primeiras semanas de quarentena, ela não pôde estar presente como as outras mães. “Meus filhos não entendiam por que as mães dos amiguinhos estavam em casa e eu não. A minha filha mais nova chorava querendo a minha companhia. E, tanto ela quanto o mais velho, recusavam-se a fazer as atividades escolares sem a minha ajuda. Eles não entendiam o que estava acontecendo, mas foram se adaptando e compreendendo que a gente precisava ficar em casa por conta do vírus”, conta Glaucia.

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A importância da rotina

Para a psicóloga e psicoterapeuta Viviane Pessi Feldens, é necessário que, mesmo em meio à quarentena, seja criada uma espécie de rotina que envolva as responsabilidades com a escola, programações de tarefas em casa e também com espaços dedicados ao descanso. “Para minimizar esse impacto é preciso que a família resgate valores de união, boa convivência e atividades prazerosas, como brincadeiras lúdicas, esportivas, gastronômica e artísticas, sempre buscando diminuir a ansiedade causada pelo isolamento”, destaca a profissional.

No entanto, essa situação de adaptação não é tão simples para todos e ainda há aqueles que, mesmo após cinco meses de quarenta, não se acostumaram. Nathalia Gerhardt, junto aos avós, é quem cuida da irmã Manuela, 12 anos, e dos gêmeos Valentina e Lorenzo, de cinco. Entre as queixas está a dificuldade que a falta de contato social traz, principalmente para a irmã adolescente. “A Manuela já é mais extrovertida, gosta de estar perto e rodeada dos amigos. Tem sido bem difícil passar por esse momento, ela vive entediada, estressada e tem até apresentado atitudes meio rebeldes, que antes não ocorriam com tanta frequência”, pontua a assistente administrativa.

Imaginação e memórias

A profissional Viviane ressalta que, “para as crianças e os adolescentes que estejam enfrentando problemas com o distanciamento social, se faz importante tentar criar lembranças positivas e um ambiente afetivo durante essa fase. Seja por meio de encontros virtuais, utilizando ligações por vídeo chamada com os amigos e familiares, a elaboração de trabalhos manuais que despertem a imaginação, ou até mesmo a confecção de cartas para serem enviadas às pessoas queridas. Deve-se sempre dar a oportunidade para um ambiente propiciador de diálogo, em que a criança se sinta à vontade para conversar sobre os sentimentos que necessita externalizar”, orienta.

O ensino durante a pandemia

Outro desafio enfrentado tem sido as aulas on-line. Lá em março, quando o Coronavírus ainda não era uma realidade, nem pais e professores imaginavam as mudanças que estariam por ocorrer no cotidiano escolar. O sentimento de “férias” acabou se instaurando entre todos, afinal, não se acreditava que a pandemia iria se estender por tanto tempo.

Os meses passaram e agora, para muitos, a vida voltou ao normal, com longas cargas horárias de trabalho e responsabilidades diárias fora de casa. A família da Nathalia também tem sofrido na pele com isso. “Eu já voltei a trabalhar durante todo o dia, então não consigo dar o auxílio necessário para a Manuela e os pequenos. Antes não havia essa preocupação, pois eles frequentavam a escola, eram bem cuidados e sabíamos que estavam lá para aprender e estudar. Em casa, ainda há o problema de atenção, já que eles despertam muito fácil com a TV ligada ou o celular chamando a todo instante”, comenta Nathalia.

Já para os professores, os desafios são outros. Ana Cecília Marcelino é pedagoga há três anos. Para ela, manter a concentração dos pequenos não é uma das tarefas mais fáceis. A professora conta que geralmente as aulas não passam de 50 minutos, pois a concentração das crianças se esvai facilmente ou a própria internet dos alunos não colabora com a situação. A busca por atividades que os mantenham focados e prendam a atenção é constante. “Essa falta de contato direto com as crianças também atrapalha a nossa avaliação sobre o aprendizado. É comum que cada um deles tenha o seu próprio ritmo de desenvolvimento e assim longe não conseguimos compreender tão bem isso. Há pais que não deixam os filhos criarem sozinhos e até mesmo aqueles que não conseguem ter tempo para apoiar e auxiliar nas tarefas.

Estamos a todo momento tentando buscar novas ferramentas que auxiliem nessa avaliação, sempre atentando ao que for melhor para o aluno”, enfatiza a pedagoga. Cecília ainda destaca mais um problema: a descrença de que alguns pais possuem sobre quanto este ano pode ou não ser aproveitado no âmbito escolar. “Há pais que acreditam que, como tudo está parado, não haja motivo para que as crianças foquem nas aulas on-line, que não fará diferença. A verdade é que nós acreditamos, de forma geral, que este ano foi de reaprendizado para todo o mundo, incluindo a forma de ensinar e educar. É preciso lembrar que, toda evolução que a criança exercita, mesmo que pequena, já é fundamental e faz toda a diferença nos anos iniciais de ensino”, reflete a pedagoga.


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