O poder da inclusão no mercado de trabalho

Mais de um bilhão de pessoas no mundo vivem com alguma forma de deficiência. O equivalente a um, a cada sete de nós. E, 80% dessas pessoas, adquirem a deficiência entre 18 e 64 anos – a idade média de trabalho para a maioria – e são 50% mais propensas a ficar desempregadas. No Brasil, estima-se que 9 milhões de pessoas com deficiência estão em idade e aptas para trabalhar, mas cerca de 400 mil postos ainda estão desocupados. Somente 48% do total das vagas reservadas para pessoas com deficiência estão ocupadas, apontam dados do Ministério do Trabalho e IBGE.

É nesse cenário que algumas empresas apostam em consultorias que promovem a relação entre profissionais com deficiência e o mercado de trabalho. Uma delas é a Talento Incluir, fundada por Carolina Ignarra, graduada em Educação Física, pós-graduada em dinâmicas dos grupos e especialista em neuroaprendizagem. Em 2001, após um acidente, ela ficou paraplégica e passou a se movimentar com auxílio da cadeira de rodas. No ano passado, a empresa dela e da sócia, Juliana Ramalho, aumentou em 30% as contratações de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, em comparação com o ano anterior. Foram 474 profissionais com deficiência contratados.

“Lembro de uma frase que o economista Ricardo Amorim, falou no encerramento de um congresso de profissionais de Recursos Humanos: ‘Empresas: é diversidade ou morte!’.”

Aquilo me marcou muito e acho que de uns três, quatro anos para cá, as empresas têm entendido. Eu, pelo menos, percebo uma aceleração que traz resultados muito importantes para essa temática.”, conta.

A Talento Incluir desenvolve projetos de consultoria, treinamento, seleção e retenção de profissionais com deficiência, além de preparar outras empresas para melhor atender a esse perfil de consumidor. Fundada em 2008, a companhia já proporcionou emprego para mais de 7 mil pessoas com deficiência a partir de uma preparação exclusiva e diferenciada. Além disso, aplicou programas de treinamentos exclusivos para inclusão corporativa em mais de 300 empresas de diversos setores em todo Brasil, como Gol, Raia Drogasil, Bradesco, Tereos, PwC PricewaterhouseCoopers, GRU Airport, AccorHotels entre outras.

Carolina ressalta que várias empresas ainda não percebem a inclusão como uma estratégia de negócio que traz resultados, com benefícios para a organização em vários aspectos e pontos de vista. Mas que, neste momento de pandemia, tem percebido empresas com uma cultura de diversidade e inclusão mais robusta. “Várias companhias estão fazendo golaços no ponto de vista de serem empresas que são mais acolhedoras, para as instabilidades emocionais que as pessoas estão passando em um cenário de incerteza. São empresas mais culturalmente diversas e que estão se adaptando muito rapidamente às mudanças. O meu negócio existe para isto: ajudar as culturas das organizações a se transformarem em culturas mais inclusivas.”, diz.

Uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil

Foto: Arquivo Pessoal Carolina Ignarra

Com a atuação profissional, Carolina foi eleita uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil, segundo a lista publicada pela revista Forbes. O reconhecimento se deve ao trabalho que realiza à frente da Talento Incluir, há mais de 12 anos, para levar e fortalecer a cultura de inclusão por meio de treinamentos personalizados. “No começo do ano, eu tive uma erisipela na perna e eu estava internada no hospital bem desacreditada da vida. Eu estava muito triste porque eu tinha acabado de passar, pela primeira vez, por um longo período de férias. Como empreendedora que sou, estava pronta para voltar para o trabalho, cheia de planos e veio essa interrupção por conta da saúde. Do nada, recebi a notícia, via WhatsApp, que eu tinha sido eleita uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil. Eu li, reli, li de novo e não estava nem acreditando. Esfregava os olhos para ver se o que eu estava lendo era real.

Foi maravilhosa a notícia e me deu mais força para continuar. Até porque dois meses depois começou essa pandemia e essa crise econômica, que fere de forma muito prejudicial um pequeno negócio, como é o meu.”, explica.

Lei de Cotas

A Lei de Cotas, que está prestes a completar 30 anos, tem feito muito mais que apenas exigir números de pessoas com deficiência dentro das empresas. O movimento para mudança de atitudes e de comportamento com relação ao tema inclusão tem ganhado espaço nas empresas brasileiras. A fiscalização tem cobrado uma necessária mudança de atitude em relação às contratações, para que as empresas empreguem e, principalmente, as mantenham empregadas e com chances de crescimento.


Foto: Arquivo Pessoal Carolina Ignarra

O tema tem se mostrado atraente para investimentos que visam não apenas o cumprimento da lei, mas com resultados que se refletem a inclusão na inovação dentro das empresas, garantindo sua existência e seu ganho de competitividade. “A Lei de cotas é uma das poucas leis brasileiras que funcionam, que tem fiscalização e resultados positivos. Os fiscais são preparados, engajados e fazem um ótimo trabalho no Brasil como um todo.

A questão é a quantidade de fiscais. Não são suficientes. Eles fazem um ótimo trabalho, mas em um número muito pequeno. Se nós tivéssemos mais fiscais, se os fiscais do trabalho tivessem um volume mais expressivo, certamente teríamos melhores resultados.”, destaca Carolina.

A empreendedora espera que, no futuro, o cenário seja tão inclusivo que a lei de cotas não seja necessária. “Neste momento, todas as empresas deveriam, sim, contratar consultorias para reconhecer as diferenças dos processos que envolvem pessoas com deficiência, para que saibam extrair o valor dessas diferenças e usá-las a favor do negócio. É muito legal o que a gente faz, é muito reconfortante e primordial para os negócios acontecerem. Mas, o mais legal ainda vai ser quando nada disso for necessário e que a inclusão seja intrínseca, esteja dentro de cada um.”, finaliza.

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