‘Pega a visão!’

Por Vanessa Mendes

Fotos: Davi Nascimento

“Sou formado na faculdade da vida, no curso de superação, e pós-graduado em me levantar todas as vezes que a vida me jogar no chão”. O breve e memorável currículo tem nome e endereço: Richesther Paaltiel da Silva, o Tuca, que é hoje o Rick Chesther, da comunidade. Sim, o entrevistado da Vision Business desta edição é um Brasileiro com B maiúsculo, que poderia ter sido mais uma vítima do sistema, mas não foi. Com um carisma nato de mineiro-carioca, é um dos seres humanos mais incríveis que tive a oportunidade de conhecer nos últimos tempos. Educado, simples, atencioso e milhares de vezes inspirador, ele tem um olhar inquieto, certeiro, que revela sabedoria e uma habilidade ímpar para transformar a vida das pessoas.


Rick é unanimidade quando esbarramos por aí com histórias de pessoas que venceram mesmo em condições difíceis. “Sou o resultado do ‘não’ que eu dei para os ‘nãos’ que eu recebi”. As situações adversas foram muitas, mas quem derrubaria um ‘gigante pela própria natureza’ que escolheu dar certo? O resultado merecedor dessa trajetória é fruto da colheita de uma vida inteira, confirmando que a lei da semeadura é real.


Seríamos falhos se enaltecêssemos, tão somente, que ele era um vendedor ambulante de água na praia de Copacabana/RJ e que mudou de vida ao se tornar empreendedor e palestrante, chegando até a falar na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Rick é o rosto do ‘povo heroico o brado retumbante’, o mensageiro aprendiz digno de todas as glórias por, em especial, ser um filho desta terra tão gentil e que não fugiu à luta.

Mineiro nascido na cidade de Pitangui, foi morar com a família em São Paulo ainda muito jovem. Precisou parar de estudar para trabalhar e ajudar financeiramente em casa. No entanto, nunca parou de ler. Chegou a executar várias atividades, como vendedor de picolés, frutas, bijuterias, além de pedreiro, auxiliar de serviços gerais e limpador de vidros. Mais tarde, indo morar no Rio de Janeiro, transformou sua vida por meio do conhecimento e da persistência.


Tudo começou quando, desempregado, Rick pediu emprestado R$ 10 a um amigo para vender água na praia. O plano parecia simples, mas na cabeça dele já estava tudo planejado: em pouco tempo passou a lucrar de R$ 150 a R$ 200 por dia. Com a fórmula, começou a compartilhar suas experiências em um canal do Youtube, que hoje soma quase 400 mil inscritos, além de mais de 1,7 milhão de seguidores no Instagram. O que ele não esperava era que um dos vídeos, de apenas um minuto, viralizasse. Nas próximas páginas, um convite para você se inspirar na entrevista exclusiva que o empreendedor concedeu à Vision Business, no Rio de Janeiro.

Graças ao sucesso do seu trabalho como palestrante, escritor e consultor, você chegou a assinar contratos milionários. Com a agenda cheia, precisou largar as areias de Copacabana e parar de vender água. Como foi este momento de colher aquilo que tinha plantado muitos anos antes?

Para mim, foi a certeza de que a lei da semeadura, de fato, existe. A gente sempre ouve falar de alguém que conseguiu, mas geralmente não conhecemos essa pessoa. Nascido no ambiente em que eu nasci, na comunidade, é muito distante ouvir falar que alguém conseguiu colher coisas boas na vida. Mas, de repente, aconteceu comigo. Um cara que, não por coincidência, teve como primeiro emprego da vida plantar, cultivar e colher em uma horta. Acabou que eu plantei e cultivei coisas boas por 40 anos, e agora estou colhendo. Posso dizer hoje que a lei da semeadura é real e que a minha história prova isso.


Os seus vídeos têm, entre os principais focos, o objetivo de levantar a autoestima dos milhões de desempregados brasileiros. Como você se sente fazendo a diferença em um cenário como o do nosso país?

Eu sinto que o brasileiro precisava de mim. Eu sou um cara de muita fé e penso que Deus é providencial. Naquele momento, em 2018, nosso povo estava muito machucado, e o país estava atravessando uma crise gigantesca. De repente surge esse cara, Rick, com um vídeo que não é só um vídeo, é um tapa na mesa. Muita gente olhou e refletiu: ‘Quem é este homem’? Várias pessoas, de diferentes classes, passaram a olhar para esse cara, mas a comunidade se identifica muito mais com ele. É a história de vida de milhares de pessoas sendo contada por outro corpo. Neste momento, eu deixo de ser um CPF e passo a ser um grito dessa gente. A minha alegria é muito grande em saber que eu venho dessa turbulência, que são as classes desfavorecidas do país, e que do meio disso, saiu um cara que é exemplo para várias classes diferentes. Hoje, minha maior felicidade é ter consciência de onde eu moro, do que conquistei, dos países que visitei, dos contratos que assinei. Mas saber que ontem, um dia antes dessa entrevista, eu estava na comunidade da Mangueira cortando o meu cabelo com o barbeiro de lá. Até me emociono falando sobre isso. Hoje, eu poderia ter um cara vindo me atender na minha cobertura, mas eu faço questão de ir até lá na comunidade, porque ele precisa sentir que o Rick não se esqueceu dele.


Muitas comunidades Brasil afora sofrem com problemas de informalidade dos empregos, além da falta de saneamento básico. Mesmo essas pessoas, muitas em situação de vulnerabilidade, enfrentando esses problemas, conseguem empreender?

É possível, desde que a pessoa saiba, de fato, o que é empreender. Hoje, é importante falar que essa galera que vem da informalidade, dos lugares mais carentes do Brasil, não conhece esse termo. Muitos já trabalham por conta própria há muitos anos e nem imaginam que já são empreendedores. É só pegar o exemplo dos retirantes nordestinos que vêm para grandes centros tentar uma vida melhor. Muitos chegam aqui e vão vender produtos de porta em porta nas comunidades. Eles trabalham por conta própria a vida inteira, e muitas vezes não se enxergam como empreendedores. É importante falar sobre isso, porque não podemos inflar o termo ‘empreender’. Temos uma gama muito grande da nação que não sabe falar essa linguagem formal do empreendedorismo. Por isso, eu sempre digo que é importante, ao falar para uma comunidade, a linguagem que essa aldeia entende. Não adianta chegar e a galera não entender o que está sendo dito, tanto que a mensagem do Rick chega com consistência para essa gente, porque eu falo da maneira que o povo entende. Isso só acontece porque eu também venho desses lugares. Quando eu vou às comunidades, ninguém vai me ouvir falar em termos como ‘networking’ ou ‘mindsetting’. Se eu chegar na favela falando que sou CEO e tenho uma ‘master class’, os caras vão pensar: ‘O que ele falou?’. É mais fácil eu dizer: ‘Coordeno a empresa tal e vim para ajudar, porque vocês precisam mudar a mentalidade e se relacionar melhor com as pessoas’. É a mesma coisa, mas da maneira que aquele cara entende.

Em breve você poderá conferir a entrevista completa. Adquira a nossa sexta edição.

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