Quanto mais fazemos pelas pessoas, mais recebemos


Fotos: Arquivo Pessoal Raquel Ananias

Segurando a porta para um estranho, ou fazendo uma pequena doação: a vida cotidiana é cheia de pequenos atos de altruísmo. Apesar de estarmos familiarizados com eles, geralmente a grande mídia concentra-se em divulgar casos maiores, como doações milionárias de grandes empresários. Mas a realidade é que altruísmo é fazer as coisas simplesmente pelo desejo de ajudar, não por obrigação ou fama. Essa é exatamente a história da mineira Raquel Mota de Menezes Patrus Ananias. A estudante de direito, de 34 anos, sempre realizou várias ações durante a vida, mas nos últimos meses decidiu pedir ajuda para outros voluntários e acabou criando uma rede de iniciativas altruístas.


Quantas vezes fui para a igreja na chuva? Pessoas que iam para a mesma direção passavam por nós e, mesmo com o carro vazio, não ofereciam carona. Eu lembro que pensava que, se minha mãe tivesse um carro, tudo seria mais fácil. Na época, ela vendia roupas de porta em porta, a pé, e eu a acompanhava. Eu me lembro de pensar: ‘Quando eu tiver um carro, quero dar carona para todo mundo’. Eu sabia que atingiria o meu objetivo. Nasci e cresci em Patos de Minas, cidade com 120 mil habitantes, que fica a cerca de 400km da capital, Belo Horizonte.


Passei por muitas dificuldades ao lado da minha mãe, que foi abandonada pelo meu pai ainda grávida. Apesar disso, sempre tive, por parte dela, o exemplo da compaixão, tanto que ela cuidou do ex-marido em fase terminal de câncer, mesmo ele tendo a agredido por 11 anos. Também tive o exemplo da caridade. Por mais que tivéssemos pouco, dividíamos com quem conseguíamos. O tempo foi passando e as condições foram melhorando. Eu nunca pedi a Deus para me abençoar financeiramente, eu pedia para ter trabalho. E Ele sempre foi me abençoando. Comecei lavando cabelo em salão de beleza, aos 8 anos. Depois, fui manicure, garçonete, faxineira, e até comerciante. Só depois fui trabalhar com confeitaria, junto com minha mãe. Muita gente dizia que não teríamos futuro, mas nos tornamos referência em toda a região. Quanto mais nossa vida foi melhorando, mais caridade fazíamos. Quando eu fiz 21 anos, comprei meu primeiro carro e passei a dar carona para todo mundo. Eu sou assim.


Um dia, enquanto ia para a faculdade, vi uma senhora idosa. Chamou a atenção por estar cedo e frio e a senhora estar sem blusa. Me aproximei e descobri que o nome dela era Tereza e que tinha 85 anos. Tentei oferecer ajuda, mas fui ignorada. Até que um outro dia eu a vi carregando muitas sacolas que pareciam estar pesadas. Insisti muito para que ela aceitasse minha ajuda para carregar as sacolas, levar até o carro e depois levá-la até em casa. Quando pegou um pouco mais de confiança, já dentro do carro, Dona Tereza ficou extremamente feliz.


A senhora mora em uma dessas casas de conjunto habitacional, em um bairro bem afastado da cidade. Quando chegamos, fiquei muito assustada. A casa estava muito suja. Descobri que ela trabalhava capinando terrenos, mesmo com a idade avançada, porque precisa do dinheiro para comprar comida e remédios. Percebi também que ela morava com o irmão, mesmo tendo três filhos.


Dona Tereza me contou, por exemplo, que como não sabe ler e escrever, o irmão recebia a aposentadoria por ela, pagava todas as contas e ela ficava sem dinheiro nenhum. Mas como é sistemática, não gosta de pedir ou aceitar ajuda. Eu perguntava o que ela queria comer, o que ela estava precisando, e ela dizia que não precisava de nada.


"Eu acho que o primeiro ponto para eu querer ajudar alguém é entender que a pessoa, apesar de ter necessidade, não é aproveitadora".

Ao tirar as bolsas do carro, vi que dentro delas havia restos de frutas e verduras quase podres, além de pedaços de carne mofados. Ela disse que tinha sido paga com aquilo por capinar um terreno. Estavam se aproveitando da Dona Tereza.


Conversando sobre a situação financeira, ela me explicou que tinha um valor referente a um acidente para receber do seguro DPVAT. Fui atrás e vi que a situação era um pouco complicada e que ela não conseguiria receber. Quando eu perguntei o que ela faria com o dinheiro, me disse que queria investir na casa e construir um muro, para se sentir mais segura.


Eu fiquei muito tocada e falei que iria ajudá-la. Montei uma equipe com dez voluntários. Limpamos toda a casa e o quintal. Bem nesse dia eu tive um aborto e tive que ir para o hospital. Quando eu voltei, o pessoal tinha jogado muita coisa fora, porque ela era um pouco acumuladora. Ela chorou muito, mesmo sendo coisas que ela não usaria nunca, porque era muito apegada com aqueles objetos.


Depois de uns dias, fiz um orçamento para as obras. O trabalho ficava em R$ 5 mil. Eu fiz um post nas redes sociais pedindo doações para ajudar a Dona Tereza. Mas, de qualquer forma, meu marido, que é cirurgião plástico, já tinha dito: ‘Se você não conseguir o valor, a gente paga’.


Mas pessoas de outros estados e até de outros países ajudaram. Conseguimos arrecadar tudo em quatro dias. Cimentamos toda a frente da casa, construímos o muro e ainda um banquinho de cimento para ela pegar sol de manhã.


A nossa iniciativa mudou a vida da Dona Tereza. Hoje, ela parou de capinar. Eu tenho muito orgulho de poder ajudar em situações assim, e, mais do que isso, ter incentivado meu marido a ajudar também. Hoje, ele é parceiro. Sobe a favela e leva cestas básicas, ajuda um lar de idosos pagando conta de água e faz doações para o hospital, por exemplo. Como é cirurgião, sempre que vejo alguém na rua com algum problema de pele, peço para ele olhar. Eu já abordo a pessoa, marco um horário, coloco no carro e levo. Tenho um amigo dermatologista que ajuda também. Outro dia, tinha um conhecido que estava com uma ferida muito grande na perna há quatro anos. Eu liguei para esse amigo nosso, ele atendeu e em um mês de tratamento o homem estava curado.


TUDO ME COMOVE

Todos os dias, eu oro: ‘Senhor, coloque no meu caminho alguém que eu possa servir’. Quando eu vou ao supermercado, sempre fico de olho para ver se alguém precisa de ajuda. Puxo assunto falando que tem pão quente saindo ou falando da previsão do tempo. Dou um jeito de conversar para ver se a pessoa fala alguma coisa e me dá abertura.


Tudo me comove. Acho que é um dom que Deus me deu. Sempre acabo com alguém dentro do carro, levando a pessoa para algum lugar. Paro em pontos de ônibus, principalmente quando está chovendo, e falo: ‘Alguém quer ir para aquele lado?’. Tem muita gente que olha e pensa: ‘Eu não vou entrar no carro’. Mas pelo menos eu me ofereço. Já me falaram: ‘Tens uma carinha de pessoa boa’. Acredito que quanto mais fazemos pelas pessoas, mais recebemos. Tem que fazer pensando em agradecer o que você já recebeu.

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