Se todo mundo respeitasse o próximo, estaríamos em um mundo melhor

Vivemos em um mundo cheio de conflitos, opiniões e visões, mas, definitivamente, as pessoas precisam se respeitar mais

Fotos: Arquivo Pessoal Mariam Chami

BRASILEIRA com caixa alta. É assim que começa a bio do perfil da muçulmana Mariam Chami de 30 anos, no Instagram, rede em que acumula mais de 360 mil seguidores.


Diferente de outras influenciadoras que têm foco em beleza, nutrição e moda, Mariam usa o espaço para compartilhar como é a rotina de uma muçulmana vivendo no Sul do país. Filha de pai libanês muçulmano e mãe brasileira convertida ao islamismo, há mais de 30 anos, a jovem tem discurso de igualdade e tolerância. Para a Vision Business, Mariam conta como usa as redes sociais para quebrar preconceitos e questionamentos xenofóbicos.


Meu pai, que sempre trabalhou com restaurantes, deu uma volta ao mundo e passou por vários países antes de vir para o Brasil. Ele nem imaginava que chegaria aqui e conheceria a minha mãe, que acabou indo trabalhar como gerente em um estabelecimento dele. Por causa da convivência, eles se conheceram melhor e casaram muito rápido, em apenas um mês. Minha mãe, apesar de vir de uma família cristã, não tinha uma religião, só acreditava em Deus. O que ocorreu foi que ela acabou se interessando pelo islamismo, estudando e gostou. Tanto que passou a praticá-lo junto com o meu pai. Não existe muçulmano praticante ou não: ou você é muçulmano, ou não é.


No entanto, meu pai era um muçulmano que não estava tão ligado à religião naquele momento, e com o interesse da minha mãe ele voltou a ter esta conexão. Ela casou com 21 anos e me teve aos 24.


Na infância, meus pais tiveram o cuidado de me colocar em uma escola muçulmana, em São Paulo. Era uma escola convencional, como todas as outras, com grade curricular tradicional. O diferencial era que se tratava de um ambiente islâmico, com salas de oração, aulas de religião etc. O engraçado é que, mesmo no Brasil, eu não me sentia uma minoria, já que, apesar de contar com estudantes que não eram muçulmanos, a quantidade de alunos como eu era muito maior. Só fui sofrer um pouco mais, nesse sentido, quando entrei na faculdade, onde eu realmente era minoria. Essa etapa da minha vida foi um tanto difícil, tive que me adaptar. No começo, não falavam comigo, me olhavam estranho. Nunca cheguei a sofrer preconceito em um sentido mais sério da palavra, mas precisei de uma boa adaptação. Só vez ou outra que alguém fazia uma gracinha. Me acostumei.


Eu sou uma pessoa tímida, então talvez isso tenha dificultado. Mas eu era muito mais do que sou hoje. Agora, eu sou o tipo de pessoa que é tímida nos primeiros minutos, depois, quando reconheço e domino o espaço, sou mais extrovertida.


Nas redes sociais, as coisas ocorreram por acaso. Meu Instagram era pessoal, sempre compartilhei a vida e brincava muito com os amigos. Um pouco antes de surgirem os stories, eu tinha cerca de 2 mil seguidores. Meu público era formado, basicamente, pelos meus amigos. O número foi crescendo, e eu não tinha muita dimensão do que estava acontecendo. Foi muito natural.


Hoje, eu tenho total noção da minha importância e papel nas redes sociais. O meu objetivo é desmistificar toda a ideia que as pessoas têm sobre a fé muçulmana e mostrar que a religião não é tão limitante quanto as pessoas acham que ela é. Eu vivo uma vida normal tanto quanto qualquer outra pessoa.


Não vivo completamente disso, ainda, mas já tenho retorno financeiro. Tanto que, há pouco tempo, fui indicada ao prêmio Influency.me, que é considerado o Oscar dos influenciadores digitais. Fiquei entre os 10 indicados na categoria ‘Opinião’, junto com nomes como Felipe Neto e vários outros muito grandes.


Fiquei muito feliz! Até porque seria muita hipocrisia da minha parte eu falar que nunca imaginei que cresceria ou que chegaria onde estou hoje. Quando uma pessoa se dedica a algo ou tem um objetivo de vida, que é passar uma mensagem ou abrir um negócio, é mentira ela falar que não imaginava que cresceria. Claro que sempre imaginei que o meu trabalho fosse reconhecido. O que eu não imaginava é que seria tão rápido.



A minha bandeira é a da representatividade. Eu, uma mulher muçulmana, estar representando outras mulheres, não apenas muçulmanas, mas que se identificam com as coisas que eu falo e mostro. O que eu apresento não são só posts da minha religião. Muitas coisas são gerais. Respeito, tolerância, coisas que não envolvem uma religião só. O feedback positivo é muito maior, mas é claro que tem hater. Eu lido com as mensagens negativas com bom humor, sempre brincando, tirando sarro, porque esse é o meu jeito. Às vezes, há coisas que não são necessárias, como mensagens xenofóbicas e preconceitos, então eu as ignoro. Sabe aquele ditado que diz que ‘o prego que se destaca é martelado?’. Isso é verdade! Só que a quantidade de mensagens positivas é infinitamente maior.


As pessoas gostam muito de vídeos sobre namoro ou coisas que faço com meu marido, porque muita gente acha que os homens muçulmanos são todos brutos. No meu caso, graças a Deus, meu marido não é assim. Homem ruim tem em todos os lugares. Não depende de religião ou nacionalidade. O Brasil é o quinto no mundo em feminicídio, por exemplo. Existem muçulmanos machistas? Sim. Mas existem também machistas católicos, judeus, espíritas etc. Inclusive, na nossa religião diz:


“O melhor entre vós é o melhor que trata as suas mulheres. O homem muçulmano que não fizer isso está desobedecendo a Deus.”


Um dos meus vídeos mais assistidos é o da história do meu casamento. Coloquei um título bem chamativo: ‘Como meu casamento foi arranjado’. Quando, na verdade, não foi isso que aconteceu. Eu brinco com estes estereótipos porque as pessoas acham que os muçulmanos só casam a partir de casamento forçado. Meu discurso para quem pergunta está pronto. Digo que quem arranjou nosso casamento foi Mark Zuckerberg, porque a gente se conheceu pelo Facebook. Esse vídeo tem mais de 7 milhões de visualizações no TikTok, e ultrapassa 3 milhões no Instagram.


Assuntos sobre a mulher muçulmana também rendem: o que ela pode fazer ou não. O difícil é que às vezes aparece alguém dizendo: ‘Você só está falando que pode isso tudo porque está no Brasil. Quero ver se estivesse lá’. A pessoa não sabe nem dizer onde é ‘lá’. E pode ter certeza de que tudo o que eu falo que pode, pode, eu estando no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, já que a religião é a mesma. As pessoas confundem religião com política, com país e com leis.


Eu gosto de explicar bem explicado. Faço muitas analogias para as pessoas poderem se colocar no meu lugar. Um exemplo: ‘Por que a mulher muçulmana usa lenço?’. Ou algum comentário dizendo ‘Que absurdo! Você deve morrer de calor’. Com paciência, eu explico: ‘Por que ninguém fala do homem, advogado ou qualquer um que vive engravatado e tem que ficar com o paletó, camisa, gravata, meia, sapato?’ Isso também deve dar calor, mas ninguém questiona. Por que as muçulmanas são taxadas de oprimidas por causa da vestimenta? Não sei por que as pessoas se incomodam tanto com o que o outro tá fazendo.


Eu sempre defendo que a mulher muçulmana é mulher. Não é porque estamos vestidas deste jeito que não somos vaidosas. Muito pelo contrário. Claro que nenhum excesso faz bem, independentemente do que for. Mas querer se cuidar é fundamental para a autoestima. Se todo mundo respeitasse o próximo, estaríamos em um mundo melhor.

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