Um olhar feminino na atuação criminalista

Por Marimélia Martins Zanella

Foto: Davi Nascimento

Não são raras as vezes que me questionam como é ser uma advogada criminalista. Dentre as diversas falas que escuto, algumas um tanto rudes, me questionam como é conviver com bandidos ou como é lidar com o sentimento de culpa. Há ainda aqueles que, preocupados com minha integridade física (tento acreditar que seja esse o motivo), me questionam como é transitar por ambientes degradantes, sofrer revista ao adentrar nas penitenciárias, se não tenho medo de retaliações e por aí vai.


Em algumas ocasiões, acho graça, noutras, penso que é apenas falta de conhecimento sobre a carreira, somado ao estigma que a sociedade tem sobre o réu, definindo-o como ‘bandido’ antes mesmo de sua condenação. Existe, ainda, o preconceito direcionado a uma mulher jovem atuando em uma carreira que, aos olhos de muitos, ainda pertence ao universo masculino.


Mas, em linhas gerais, eu respondo: é gratificante. Acredito que as pessoas merecem uma segunda chance, uma vez que um erro não pode, ao menos não deveria, ceifar a vida ou impedir que o sujeito prossiga em uma nova perspectiva. Também sou motivada pelo fato de compartilhar essa profissão com outras mulheres, que, assim como eu, lutam, diariamente, para ganhar seu espaço e estimular outras a buscarem o seu.


Confesso que ser advogada, mãe, esposa, amiga e filha acaba por estabelecer uma rotina extremamente exaustiva. Contudo, essas mil faces da mulher me ajudam a entender de forma mais sensível a profissão, pois colaboram para o aperfeiçoamento de um olhar mais empático ao me deparar com mães que veem seus filhos sendo processados e, por vezes, enxurrados pela população, ou esposas submetidas às humilhantes revistas pessoais para visitarem seus companheiros na cadeia.


Meu olhar também passa a ser mais compreensível quando me deparo com o sofrimento de filhas assistindo às suas mães serem presas, muitas vezes por intermédio dos cônjuges e, posteriormente, sendo por eles abandonadas, largadas à própria sorte. Em outros momentos, penso nas magistradas, promotoras, delegadas e defensoras que, assim como eu, enfrentam o preconceito de serem mulheres ocupando cargos de decisão, questionadas em sua capacidade, como se ainda vivêssemos no século passado, quando a ideia de dependência e submissão preponderava.


Isto porque, ao menor indício de autoria do crime, o indivíduo é taxado de bandido e, ali mesmo, sai a sua condenação. Sem defesa, sem provas, sem nada. E o que me desassossega neste enredo é o punitivismo exacerbado do Estado, cujas leis ficam mais duras a cada dia, sem a preocupação de corrigir um sistema falho e corrupto, que são nossos presídios.


Aliás, somado ao punitivismo estatal, me assombra o fato de que incontáveis pessoas não refletem que qualquer indivíduo pode ser apontado como autor de um crime, justo ou não, e que a vontade e a paixão popular em punir, que hoje estão acima da razão jurídica, são absurdas.

Foto: Freepik.com

Nós, criminalistas, não defendemos o crime. A relevância da carreira é justamente para que a sociedade mantenha direitos historicamente consagrados em voga. A advocacia criminal trabalha a favor de que as leis sejam respeitadas para que o indivíduo responda, tão somente, por seus atos, e que tenha ao seu lado um processo justo, com paridade de armas, de modo que, caso seja condenado, sua pena não ultrapasse à determinada em lei.


Enfim, poderia passar horas escrevendo sobre como é trabalhar na esfera criminal, mas finalizo dizendo que ser criminalista é ter empatia e compaixão. É enxergar o próximo sem julgamento prévio ou posterior. É ter amor e nobreza no coração, para deixar de lado o preconceito, a hostilidade e levar esperança a quem precisa. Tenho que concordar que a profissão não tem nenhum romantismo, mas o amor é assim mesmo, inquieto, intrigante e compassivo.

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